LAFAETE ROCHA, O PRIMITIVO DA LAPA

Os depoimentos que faço sobre aquilo que vi, e às vezes dos quais fui parte, na história das artes plásticas do Paraná no século 20, têm sentido documental relativo. Isso faço questão de esclarecer, para até ganhar a boa compreensão do leitor: a questão de datas não é precisa, e muitos dos temas poderiam ser aprofundados.
No entanto, tais limitações ganham o benefício do entendimento dos que verdadeiramente apreciam o assunto. O importante é que o conteúdo dos episódios relatados é veraz e quando não sou preciso quanto aos anos, situo os fatos na década devida.
Assim, uma das preocupações minhas é registrar fatos e momentos que, por diversos motivos, não foram registrados pelos meios de comunicação, especialmente a mídia impressa, que foi soberana em Curitiba, da metade do século passado até os Anos 80.
Um personagem que passou em brancas nuvens no reconhecimento do público mais abrangente, mas que teve capital papel na formação de novas gerações de artistas plásticos de Curitiba, foi Ivani Moreira, educadora da arte, uma das tantas descobertas de Ennio Marques Ferreira.
Conheci Ivani por intermédio de Ennio, que depois do Departamento de Cultura do Estado (verdadeira Secretaria de Cultura no primeiro governo Ney Braga), iria ocupar posições de enorme relevo na área, como a presidência da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), durante a administração de Saul Raiz na Prefeitura.
MULHER FORTE
Ivani era uma mulher forte que fazia o possível para ser agradável e, sobretudo, ser ouvida em sua catequese. Trabalhou por anos na então Casa Alfredo Andersen, e lá se concentrava num setor de arte na educação.
Educava as novas gerações sob as linhas mestras de grandes teóricos, especialmente os ingleses. Ivani mantinha uma rede enorme de contatos no Brasil, envolvendo gente e instituições com os mesmos propósitos que os dela.
Uma das discípulas de Ivani foi Gilda Belzack, uma das mais promissoras gravadoras em metal que os anos 1960 revelaram. Morreu cedo, com 20 e poucos anos.
Ivani tinha particular acuidade para descobrir valores. Um dos mais impressionantes no rol de descobertas de Ivani, já nos anos 70, foi o escultor “naif” – ou primitivo – Lafaete Rocha, um negro lapeano, que trabalhava a madeira com maestria. De suas mãos saiam os crucificados ‘explodindo’ suas dores, os cachos de banana e outras frutas que compunham o universo real de Lafaete. Os santos de Lafaete eram parte de sua enorme produção feita numa casa modestíssima, sem luz elétrica.
Com a humildade que o caracterizava, uma vez por mês ele vinha de ônibus da Lapa para Curitiba, trazendo sua produção artística. E na Capital foi ganhando conhecimento e mercado. Mas sobretudo ganhou o apoio de gente como Ennio e Ivani. Esses apoiadores, e outros, resolveram tirar Lafaete e a mulher e os quatro filhos que viviam em situação precaríssima no interior da Lapa, para Curitiba. Conseguiram casa para o artista, ele fez exposições individuais e chegou a expor sua obra ‘naif’ no então grande centro nacional de artes plásticas, o Rio de Janeiro, com as bênçãos – se não estou enganado – de Roberto Pontual e de Walmir Ayala, sob o “empurrão” de Ennio e Ivani.
Como a vida prega peças, inúmeras, a felicidade do “naif” Lafaete durou pouco: a casa que lhe deram sofreu incêndio, ele perdeu a mulher e 2 filhos, se bem me recordo.
Isso ocorreu no final dos 1980.
Lafaete Rocha (in memoriam) é dos melhores exemplos de quanto o artista primitivo pode projetar-se. Desde que na sua vida apareçam gente como Ivani e Ennio.
Quem tem obras de Lafaete considere-se um bem-aventurado, dono de raridade.
PS: obrigado ao amigo advogado José Machado de Oliveira pelas palavras de estímulo pela série. Ele faz parte de uma ampla relação de leitores que se tem manifestado sobre a série.
Leia mais:
Artes plásticas do Paraná no século 20 (1ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (2ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (3ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (4ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (5ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (6ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (7ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (8ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (9ª parte)
Artes plásticas do Paraná no século 20 (10ª parte)
