Por Eloi Zanetti – eloizanetti@gmail.com.br – Eu estava trabalhando em Rondônia e para aproveitar o feriado prolongado de 7 de setembro, apresamos uma pescaria. Fomos até Guajará-Mirim e de lá descemos o rio Mamoré – uma viagem de horas. À tardinha, encostamos os barcos em um portinho e por um barranco lamacento subimos até um vilarejo que não deveria ter mais de 100 habitantes. Conseguimos pouso em uma casa velha cheia de morcegos que tivemos que espantar para poder dormir – ali fizemos a nossa base. No feriado, pescamos o dia inteiro e, ao final da tarde, voltamos para descansar.
Arrumamos as tralhas, tomamos o merecido banho e saímos para procurar cerveja gelada e iscas de peixe frito. Encontramos uma espécie de bar arranjado em um puxadinho. Dali começava a única estrada de terra que chegava ao lugar e indicava que o próximo povoado ficava a centenas de quilômetros. De vez em quando entrava um vento forte e com ele um poeirão cobrindo tudo. A cerveja, apesar de cara, estava ótima.
Agora o melhor da história: no lusco fusco da entrada da noite pude ver entre a poeira e as luzes embaçadas dos postes um senhor a pé, empurrando uma bicicleta pelo guidão, toda enfeitada com papel crepom nas cores verde e amarelo. Na garupa, um menino vestido de Dom Pedro I portando uma bandeira do Brasil. Caminhavam junto mais três crianças vestidas de soldado – iguais aos do quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo. Haviam participado do desfile de 7 de setembro e voltavam felizes para a casa.
Em meio àquela poeira onde mal se podia ver os vultos que passavam, fiquei olhando a insólita cena – em plena Floresta Amazônica, em um vilarejo perdido, pessoas cultuavam a nossa independência com respeito. Estávamos naquela época em que nas cidades grandes muitos, desiludidos, migravam para fora do país e chamávamos na economia de “a década perdida”.


Eloi Zanetti é escritor, palestrante, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
