
Por Aroldo Murá G.Haygert, jornalista
Primeiro de tudo, quero informar aos meus leitores que a apreciação que passo a fazer do livro (e.book) Evangélico no Brasil, do jornalista Franco Iacomini, será tão ampla quanto eu julgar necessário. Não tem data para finalizar.
Sua publicação não obedecerá, no entanto, a uma sequência cronológica. A edição irá ocorrendo, na medida em que eu puder dar conta do recado, no exame de uma obra interessante, publicada sob a égide da Gazeta do Povo, instituição que, sabidamente, é dirigida por um dos mais importantes quadros da organização católica Opus Dei, de cunho claramente conservadora.
A Obra de Franco é interessante, sujeita a observações e reparos, pois.
Dessa maneira, conto com o interesse do leitor para manter o trabalho, um pequeno resumo de tudo que aprendi desde 1962, quando o fundador da Igreja Brasil para Cristo, Manoel de Mello, ao dar-me entrevista na saída de conferência que fez no Colégio Estadual do Paraná, fez o que os autocratas costumam fazer: xingou o jornalista. Chamou-me, desagradado por perguntas minhas, de “repórter de salário mínimo”. Não mentiu. Mas a frase tinha evidente interesse em maltratar-me ou calar-me.

Eu trabalhava para o extinto Diário do Paraná, e ganhava pouco mais do que um salário mínimo… E Mello logo em seguida seria patrocinado regiamente por um político paulista, capo dos Diários Associados, que se elegeria deputado federal com as bênçãos do pregador. Acho que ali começou a nada santa aliança dos evangélicos com o poder político, que acabou resultando em realidades sempre contestadas, como a chamada Bancada Evangélica no Congresso.
Na verdade, eu ouvira uma das primeiras pregações de Manoel de Mello, um pedreiro pernambucano, semi-analfabeto, no Parque da Redenção, em Porto Alegre, em 1959, quando sua igreja ainda acontecia nas praças.
Voltando ao gesto de Guilherme da Cunha Pereira, diretor da GP: o empresário vai além do espírito ecumênico. Mostra respeito à opinião dos outros, desde que venham com embasamento respeitável. Caso do trabalho de Iacomini, que, no entanto, não está livre de reparos. Como os que faço agora.
PROFUNDIDADE NECESSÁRIA
Feita esta observação inicial, com vistas a não causar expectativas de que atenderia diariamente ao leitor, cabe afirmar que o trabalho de Iacomini tem altos e baixos.
Isso, entendo, até porque, embora os muitos títulos acadêmicos do autor, um batista convicto, o jovem jornalista ainda não transita com ampla segurança numa área em que gravitam muitos respeitáveis analistas do fenômeno religioso, no Brasil e mundo afora. Ele esqueceu de citar, por exemplo, a análise seminal de Beatriz Muniz de Souza, esposa do antropólogo Mariano, preciosidade nos primórdios do estudo do avanço pentecostal.
O trabalho dela está no livro Uma Experiência de Salvação, que a Editora Duas Cidades, dos dominicanos de São Paulo editaram, 1962. Com ele se entende quão certo está Harvey Cox, ao indicar o crescimento da religiosidade simples e de resultados dos pentecostais. Tudo por conta , no Brasil – diz Beatriz, professora da USP -, da amplo êxodo rural, que inchou as periferias das cidades.

Mudança súbita que retirou do ex-homem do campo seus pontos de referência, a solidariedade dos vizinhos, os encontros na capela e nas casas para a reza do terço, as missas, os festejos do catolicismo popular alegre e “íntimos do sagrado”.
Esse homem ficou a deus dará nas periferias das cidades grandes. Até ser acolhido por um grupo de crentes pentecostais, membros de igrejas ou não.
JOVEM REPÓRTER
Iacomini, que conheci na redação do Indústria & Comércio, ele muito jovem, começo dos 1990, repórter, estudante de Comunicação, superou aquela fase da doença de alguns mais moços, que precisam combater o mais velho e o s chefes em geral. Claro, amadureceu e acabou mostrando a que veio ao mundo, despido da “doença” da contestação pela contestação, que então parecia ser seu forte. Amadureceu em sabedoria.
Espero que também no espírito cristão que, ao contrário do que dizem, não atrapalha, mas só engrandece o pesquisador na área das Humanas, de forma particular.
O cristianismo assumido pelo cientista, fortalece a integridade de seu trabalho final.
FIRE FROM HEAVEN
O autor Iacomini não faz proselitismo. Tenta entender, fundamentalmente, porque o Brasil estaria marchando inexoravelmente para se tornar uma nação protestante/pentecostal ou neopentecostal. Mostra estatísticas, projeções de pesquisas, tendências… E aí acontecem falhas, como a de deixar de olhar muitas das causas básicas da perda católica e, ipso facto, do avanço protestante. É preciso examinar as raízes da queda, como a precariedade com que a igreja majoritária foi tratando seu “rebanho”, a começar pela folga de um clero amaciado pelas benesses do padroado. E pelas garantias dos senhores do capital, que controlavam – assim como o Império – até a eleição de bispos.
Iacomini ele perdeu a oportunidade de abordar algumas observações que o teólogo protestante norte-americano Harvey Cox andou fazendo pelo Brasil nos 1990. Desconheceu-o.
Essas observações resultaram num dos importantes testemunhos desse cientista sobre o chamado real avanço pentecostal, que ele identificou no nosso país, em contato, por exemplo, com uma das estrelas do pentecostalismo de então, Benedita da Silva. E com direito a ouvir a opinião de Lula da Silva, líder criado sob as benção da Teologia da Libertação, sob alguma orientação do hoje arcebispo emérito de São Paulo, cardeal dom Claudio Humes, um dos amigos mais próximos do papa Francisco.
Cox passou para o livro “Fire from Heaven” (nada a ver com o romance do mesmo nome de escritora norte-americana dos anos 20), seu olhar de lince sobre as mudanças que estavam crescendo na América Latina, África e Ásia. Mudanças que, disse, de certa forma se explicariam muito pelas garantias de respostas que o pentecostalismo dá ao cidadão da sociedade secular. É o caso, acredito, da intimidade com o sagrado – ou com “os deuses” – que fenômenos como o falar em línguas estranhas (xenoglossia) e curas físicas podem gerar em dividendos para as conversões ou meras aceitações de novos espaços religiosos.
Havey Cox (The Future of Faith, outra obra dele)) , é um especialista no examinar a cidade grande, seu espírito secular, a urbanização e as perspectivas teológicas que isso tudo gerou. Lê-lo é obrigatório para entender esse ramo do cristianismo que, hoje, pouco tem em comum com a Reforma de Lutero, e está muito distante das chamadas igrejas protestantes históricas. Afora, claro, daquelas que abrigam em suas greis linhas carismáticas.
PERDEM QUASE TUDO
Sem menos fazer à bibliografia apresentada por Iacomini em seu livro, preciosa em muitos pontos, acho que para ele garantir uma sólida análise do crescimento pentecostal entre nós teria de compulsar a obra de alguns autores respeitáveis, como os padres Antoniazzi e Oscar Beozo. O primeiro, “in memoriam”, que fez conferências para o Instituto Ciência e Fé de Curitiba, sobre a religião na cidade vertical, foi às raízes do deslocamento de seres humanos que, da noite para o dia, foram “transplantados” para as cidades grandes. Deixaram séculos de raízes e costumes para trás e ficaram à disposição de novos laços de solidariedade e amigos. Estes aconteceram principalmente em espaços pentecostais.

Iacomini, cientista social e teólogo que pretende ir longe em seus vôos sobre os evangélicos – essa realidade que faz Bolsonaro ser batizado por pastor Everaldo, hoje preso pela Lava Jato, no Rio -, precisa partilhar da obra de Beozzo. Ele é autor de um amplo estudo sobre o catolicismo na A.Latina, editado em 3 volumes péla Vozes. Beozzo, que também fez palestra para o ICFé, anos 1990, sem esconder sua simpatia pela TL, vai na ferida do catolicismo: a aliança com o poder deve ter ferido, golpe quase mortal na instituição que estava acostumada a segurar-se fortemente no “Extra Ecclesiae nula Salus”. Fora da Igreja não há salvação. (continuará)

