Burrice ali e aqui e bate a saudade de Paulo Francis. Ele não viveu para ver Lula presidente. O horror, o horror (Marlon Brando em ‘Apocalipse Now’). Morreu em 1997, aos 66 anos. Uma lástima. Faço as contas – com os dedos dos pés porque sou péssimo em aritmética – e descubro que, no ano que vem, fará três décadas de sua passagem dessa para melhor.
Claro que ele não acreditava no céu, mas certamente sabia da existência do inferno. Aqui. Morando em Nova York, o centro nervoso dos EUA, desde a década de 1970, Francis foi vítima de um ataque cardíaco fulminante. Era manhã. Sonia Nolasco, a esposa, o encontrou caído rodeado dos jornais do dia. Era sua rotina.
Ele passava as notícias antes de seguir para o estúdio da Globo, em Noviorque (na grafia dele), onde gravava comentários para o Jornal da Globo e, uma vez por semana, participava do Manhattan Connection que ia ao ar pela GNT.
Eu o idolatrava desde a adolescência. Outro dia descobri, no meio de uma caixa de papéis avulsos, alguns cadernos onde colava o Diário da Corte publicado às quintas e sábados na Folha de S. Paulo. Ele escrevia uma página inteira e era o colunista mais lido do jornal. Batia Joelmir Betting, Cláudio Abramo e Clóvis Rossi.
Em meados de 1990, Francis mudou-se para o concorrente Estado de S. Paulo, e Caio Túlio Costa, culpado em parte pela transferência, decretou sua morte jornalística. Costa está vivo. Mas, veja que engraçado, não se nota.
Rumo a “noviorque”

Há quem se lembre das referências preconceituosas de Francis e do tratamento dado ao Lula desprovido digital. Eram tempos dourados da liberdade de expressão e imprensa. Um tempo que se encerrou com a censura moralista das redes e o puritanismo da nova ordem – que pode ser tudo, menos normal.
É bom que se diga: Francis foi preso durante o regime militar. Quatro vezes. Na última delas por escrever artigos que não tinham nada a ver com política brasileira. Um a respeito de sua infância no Colégio São Bento e outro sobre uma ópera de Wagner. “Pensei: bom, esses caras estão querendo me impedir de ganhar a vida” E lá se foi o jornalista para Nova York.
Diogo Mainardi, outro proscrito, é um dos poucos que sabem da importância de Paulo Francis para o Brasil. No ano passado, preparando-se para publicar o livro “Meus Mortos” e dar por encerrada sua participação na vida brega do jornalismo, ele juntou tudo o que tinha para um especial de Francis no Manhattan Connection, programa de debate informal que ficou décadas no ar, muito em função do deboche talentoso do colunista.
Ladrões
Infelizmente, o televisivo também foi sua desgraça. A certa altura, Francis caiu na besteira de afirmar que Joel Rennó, o presidente da Petrobras, e sua diretoria roubavam a estatal e tinham contas na Suíça. Era mais uma premonição, não uma afirmação, mas foi suficiente para lhe render um processo de 100 milhões de dólares por calúnia.
A tensão causada a Francis, com o risco de falência, afetou profundamente sua saúde. Pouco depois, ele morreria.
Elio Gaspari, colunista da Folha e amigo de Francis, publicou artigo intitulado “Doutor Rennó, o senhor ganhou’” e quase 20 anos depois as investigações da Lava Jato confirmaram que diretores da Petrobras daquela época participavam de esquema de corrupção. Era tarde demais.
Vivo, Francis teria hoje 94 anos, uma idade perfeitamente plausível na corrida pela eternidade em voga. Seu olhar para o mundo e, principalmente para o Brasil, entretanto, não seria diferente. Ele já conhecia a piada.

Marcus Gomes é jornalista e advogado. Escreve sobre política, direito, condomínios e assuntos do dia a dia. Sugestões de conteúdo para redacao@bonijuris.com.br
