Por Fernando Simonetti – No universo distópico de Blade Runner, replicantes são seres reproduzidos artificialmente à luz da estrutura humana original. Praticamente idênticos às suas inspirações. Praticamente.
A busca por liberdade destes seres passa também por buscar um encontro com esses traços da originalidade humana que afastam o original da réplica.
Copiando em aproximação até que ambos se confundam em algum momento. Convenhamos, hoje em dia quase tudo que foi copiado parece ser original.
Ainda assim, é um tanto assustador e um tanto confortável pensar que nós não somos autênticos. Somos organismos que mimetizam, adaptam, organizam e emprestam pedaços alheios.
Parte delas recebemos como uma espécie de kit de primeiros socorros, para que seja possível sobreviver para depois viver. Basicamente um estágio de plágio em repertório prático e curto.
Tal qual aquele aluno em véspera de prova, assimilamos a bagagem das figuras que sintetizam nosso primeiro referencial de admiração. Tornamo-nos parte réplica materna e paterna, independente de quem ocupe esse espaço e providencie nosso primeiro manual adaptativo.
Não parecemos ter nenhum problema até aqui. Validamos e fazemos questão de comunicar aquilo que recebemos de nossos pais.
Sobrevivemos… e agora? Agora passamos a replicar também a partir de uma seleção consciente sobre nossos moldes e modelos. Contemplados com a dádiva de escolher, escolhemos aqueles que nos parecem possuir algo que também queremos ter. Da mesma forma definimos a quem não temos intenção de replicar qualquer coisa.
Esta talvez seja a confirmação mais vívida da nossa simbiose indissociável com o outro. Afinal, nós somos sempre um pouco mais de algum outro e ele um pouco mais de nós. Fazemos isso por identificação.
Entre tantos encontros da vida, alguns deles prendem nossa atenção de forma especial. Um gesto, a forma com que alguém organiza as palavras, sua postura ou o que quer que seja desse outro que, naquele instante, também desejamos que seja parte nossa.
Provavelmente tudo aquilo que mais valorizamos em nosso rol comportamental de hoje foi captado em aprendizagem e validação de alguém admirado por nós. E assim, firmamos mais uma vez nossa convicção de que não vivemos sem o outro. Inclusive quando nos tornamos adeptos do discurso blasé de autossuficiência como proteção egóica, afirmando categoricamente: “Eu não me importo”.
Provavelmente se importe o suficiente para avisar que não se importa. E dizendo isso já se importou.
A questão não é sobre reconhecer que de fato nos importamos ou não com esse outro, mas modular o quanto nos importamos para que não vivamos em demasia uma vida que não seja a nossa.
Nós existimos em dependência da existência de um outro alguém e isso não é opcional.
Somos replicantes para simplificar a vida e também para reconhecer outras existências para além da nossa.
Replicante que sou, permito-me simplificar a famosa frase lacaniana da minha forma para dizer que…
O eu é um eu no todo e múltiplos outros em partes.
Uma réplica bastante original.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
