Assessoria – Enquanto os visitantes percorrem os cenários da Rua Iluminada da Família Moletta, em Curitiba, Eduardo Moletta pode estar no quarto, concentrado nos livros de odontologia. Do lado de fora, o Natal ocupa as casas, reúne famílias e transforma o quintal em atração. Do lado de dentro, a próxima prova da faculdade continua marcada no calendário.
“Tem dias, em que a rua já está aberta à visitação, que me fecho no quarto para estudar para prova, e esqueço completamente que existe Natal no quintal de casa”, conta Eduardo, que participa da organização do evento e divide o tempo entre os preparativos e a graduação.
A cena revela uma parte pouco conhecida do passeio que atrai milhares de pessoas ao bairro Umbará todos os anos. Por trás das luzes, dos personagens e dos espaços para fotografias, há uma rua habitada por pessoas que continuam trabalhando, estudando e cuidando de suas casas. Mais de 30 integrantes da família convivem com um Natal que ocupa vários meses do ano, mas precisa encontrar espaço entre compromissos profissionais e pessoais.
Para quem visita a atração em novembro ou dezembro, a experiência começa quando as luzes se acendem. Para os Moletta, começa em março, com as primeiras discussões sobre o tema e o conceito que vão orientar a temporada. A partir dessas escolhas, a família planeja como integrar as casas, distribuir os cenários e construir uma identidade para todo o percurso.
Quem retorna a cada edição reconhece esse cuidado. As fachadas fazem parte de uma proposta conjunta, pensada para que a rua conte uma história. Até chegar à noite de abertura, essa ideia precisa se transformar em projetos, estruturas, instalações e muitos meses de trabalho.
Entre a engenharia e o Natal
Um dos responsáveis por fazer os planos saírem do papel é Lucas Moletta. Engenheiro civil e integrante da organização, ele acompanha os projetos e as construções da Rua Iluminada enquanto mantém sua atuação em obras pela cidade.

O calendário natalino se soma à agenda profissional. As intervenções na propriedade exigem planejamento e acompanhamento, assim como os demais trabalhos de engenharia. A diferença está na relação com o lugar: ali, Lucas também ajuda a construir uma tradição da própria família. “Não chega a ser um trabalho, pois fazemos isso pois amamos o Natal. Virou um negócio, pois a rua se mantém dos ingressos vendidos. Mas não podemos esquecer do nosso dia a dia e das nossas prioridades”, afirma.
A fala ajuda a compreender como a atração cresceu. O envolvimento afetivo permanece, ao mesmo tempo que a dimensão do evento exige organização, investimento e contratação de profissionais. Segundo a família, cerca de 200 oportunidades de trabalho diretas e indiretas são geradas entre setembro e janeiro, considerando a preparação e a realização da temporada.
Os familiares planejam, executam e acompanham o espetáculo, com o apoio das equipes contratadas. O resultado que o visitante encontra reúne tanto o trabalho visível durante o passeio quanto aquele realizado nos meses em que a rua ainda está sendo preparada.
Brincadeira ganhou dimensão de espetáculo
A história começou em 1996, com os primeiros enfeites luminosos instalados na propriedade onde viviam Brígida e Irineu Moletta com seus sete filhos. A decoração feita pela família chamou a atenção de quem passava pelo bairro e, aos poucos, atraiu visitantes.
A iniciativa foi interrompida em 2002 e retomada em 2016. Em 2023, passou a integrar a programação oficial de Natal de Curitiba. O crescimento ampliou o público e também a responsabilidade de preparar uma experiência que se renova a cada ano.
Segundo a organização, a temporada 2025/2026 recebeu aproximadamente 136 mil visitantes pagantes, ante cerca de 120 mil na edição anterior. Para a família, esse movimento representa meses de dedicação antes da abertura e uma rotina intensa durante o funcionamento.
Os ingressos ajudam a manter a atração. Já o planejamento busca dar unidade ao conjunto: cada casa participa da decoração, enquanto os cenários, as atrações e as opções gastronômicas compõem o percurso.
Próximo Natal já está em construção
Com abertura prevista para 14 de novembro, a temporada 2026/2027 terá entre as novidades a ampliação do castelo, que ganhará novas torres. A iluminação com tecnologia RGB será utilizada ao longo de toda a rua, permitindo diferentes combinações de cores e efeitos.
A árvore de aproximadamente 32 metros de altura, incluindo a estrela, continuará no cenário. Os personagens Sr. Moletta e Foquinho também estão previstos para a edição, cujo enredo ainda está em definição.
Até a abertura, as novidades seguirão dividindo espaço com a rotina dos moradores. Lucas continuará acompanhando obras, Eduardo terá provas pela frente e Tio Ni manterá os cuidados com a horta. Ao redor deles, a família dará forma ao Natal que começou a ser imaginado em março.
Quando as luzes finalmente se acenderem, o público encontrará o espetáculo pronto. Por trás dele, estarão meses de escolhas, construções e trabalho e, principalmente, uma vida cotidiana que continua, mesmo quando há Natal no quintal.
