Todos nós acabamos nos tornando resistentes por aprendizagem, em pouco suaves prestações. Gostemos ou não, a vida estipula marcos personalizados que se inscrevem em nós como um aviso. Cada um acaba sendo contemplado com alguma coisa que não se encaixa. Pelo contrário, desencaixa.
Pouco a pouco entendemos pela necessidade de adaptar este aviso, tornando-o mais impositivo. É a forma orgânica que usamos como defesa para abreviar nosso afastamento do que não gostamos. Até que, em um dado momento, já resistimos às eventuais repetições daquele aviso inicial de forma praticamente automâtica.
Não é muito diferente dentro do processo terapêutico. Porque desistimos da jornada quando nos sentimos incomodados? A resposta parece óbvia e realmente é. Porque algo nos incomodou suficientemente para isso. Suficiente a ponto de nos posicionar em uma espécie de dúvida ambivalente. Insistir ou resistir?
Ultrapassar estes pontos de inflexão talvez seja a tarefa mais penosa do processo psicoterapêutico. Por outro lado, igualmente realizadora quando ultrapassada e simbolizada.
A realidade é que a terapia deve sempre esperar resistência. A terapia e o terapeuta. E talvez seja esta uma das grandes articulações que o profissional precisa manejar em pontos críticos. A habilidade de, ora insistir em sincronia com o paciente, ora recuar de forma consentida, respeitando as circunstâncias que parecem afasta-lo do processo.
Grande parte dessa série de desvios, ausências e atrapalhos são componentes do mecanismo particular de trabalho paralelo ao sofrimento.
Eventualmente entendemos que todo resistir antecede um novo pedaço de existir.
E precisamos existir sempre um pouco mais.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
