sexta-feira, 24 abril, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: Globalização e tecnologia mudaram as universidades

Trechos da entrevista do reitor da PUCPR, Waldemiro Gremski, que constam da edição de setembro do Jornal de Ciência e Fé de Curitiba. É assinada por Diego Antonelli:

WALDEMIRO, O REITOR

Waldemiro Gremski
Waldemiro Gremski

É essa a tese defendida pelo reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Waldemiro Gremski. Graduado em História Natural na própria instituição, possui doutorado em Histologia pela Universidade de São Paulo (USP). Tem ainda pós-doutorado pela Universidade de Estocolmo, na Suécia, pela Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, e pelo Ludwig Institute for Cancer Research, em São Paulo.

“Nos dias atuais um único pesquisador ou um único laboratório não consegue responder todos os desafios que o processo de produção do saber exige. Qualquer pesquisa que esteja na fronteira do conhecimento, dificilmente consegue prosseguir ou alcançar resultados consistentes, sem estabelecer contato com grupos ou universidades onde haja laboratórios atuando no mesmo assunto ou área”, ressalta.

Hoje é essencial as universidades manterem acordos de cooperação?

A característica da universidade, desde a sua fundação há quase mil anos, é trabalhar em cooperação. Não é por outro motivo que os estudantes daquela época dispunham de uma espécie de passe livre entre os países para poderem frequentar outras universidades além da sua. São relatados casos de estudantes estrangeiros já no século XVII na universidade de Oxford, na Inglaterra. O mesmo ocorria com os professores.

TERCEIRA REVOLUÇÃO

Com a Terceira Revolução Industrial, que inaugura a era do conhecimento, desaparecem as fronteiras entre os países; sobrevindo a globalização.

Como resultado, o mercado de trabalho sofre mudanças profundas em relação à demanda de mão de obra, cujas habilidades têm a ver com inovação, autonomia, capacidade de enfrentar o novo e o imprevisto, e não apenas uma formação técnica, profissionalizante, cursocêntrica, focada no conteúdo.

Essa realidade também está presente na formação das pessoas?

Essa realidade interdisciplinar se estende também ao processo de formação de recursos humanos. Pertence ao passado querer formar alguém em qualquer área colocando-o exclusivamente numa sala de aula, de uma maneira passiva, com um professor reproduzindo conhecimentos já há muito superados, à maneira de um “colegião”.

No máximo podem-se formar bons técnicos, que irão ao mercado cumprir rotinas. Formar, nesta nova realidade, porém, significa tornar o estudante protagonista do seu processo de formação, exercitando em profundidade a sua autonomia, utilizando no seu processo formativo toda a tecnologia que está ao alcance de seus dedos, com a universidade e o professor desempenhando o papel de um ente que o orienta e sistematiza o conhecimento disponível.

Acabou há décadas o tempo em que o conhecimento se encontrava disponível apenas num livro ou na cabeça (ou na ficha) do professor. A universidade precisa estar ciente de que está formando pessoas que precisam estar preparadas para uma realidade que ninguém sabe qual será. Há estudos que mostram que 68% dos jovens que hoje cursam ensino médio nos Estados Unidos irão ocupar empregos, após a conclusão do seu curso superior, que hoje não existem.

PRODUTOS VIRTUAIS

Outros dados indicam que mais de 60% das tecnologias hoje desenvolvidas são produtos virtuais. É imprescindível que o nosso aluno tenha clara consciência de que vivemos uma era em que o homem percebeu que o limite da sua capacidade está na sua criatividade. E não necessariamente numa montanha de conteúdos que ele deve decorar hoje para esquecer amanhã.

Não foi outra a alavanca que moveu pessoas que construíram a Apple, o Google, o Facebook. É o que move hoje os grandes centros de excelência tecnológicos mundiais como Cingapura, Tel-Aviv, Vale do Silício, China, fontes de propostas disruptivas que irão quebrar barreiras e mudar hábitos em todos os níveis.

É para essa realidade que as universidades devem olhar?

É para essa realidade que precisamos formar pessoas, na qual habilidades como inovação, empreendedorismo, criatividade, trabalho em grupo, ética em todas as ações, tornam-se imprescindíveis e não apenas um diploma que passa a valer mais como um documento formal do que garantia de sucesso profissional.

Pois bem: neste caso também é fundamental uma formação inter e multicultural, que abra os horizontes do estudante para um mundo sem fronteiras, com tudo o que isso significa. Isso pode ocorrer por meio de um intercâmbio, hoje adotado pela maioria das grandes universidades e fortemente estimulado por boa parte dos países, seja atraindo alunos estrangeiros, seja enviando os seus estudantes para fora. Na Austrália, por exemplo, em torno de 25% dos seus estudantes universitários, são estrangeiros. Isto cria ambientes multiculturais nas universidades que se refletem na formação dos alunos, em especial daqueles que não podem sair do país. Outro aspecto fundamental desse processo está na figura do professor estrangeiro ou de professor que fez ao menos parte da sua formação no exterior”.

Biblioteca da PUCPR no Prado Velho e a Universidade de Estocolmo, na Suécia.
Biblioteca da PUCPR no Prado Velho e a Universidade de Estocolmo, na Suécia.
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