terça-feira, 16 junho, 2026
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Marginália: Estoy cansado, jefe

Por Lucas Jensen – Venho repensando minha “presença” digital nos últimos anos. Meu desejo pelo analógico vem se intensificando. Quero talvez tornar as coisas mais simples. Retornar à inocência. Mas quem sabe seja justamente o oposto.

A vida nos moldes atuais não é complexa, é homogênea. Nunca tivemos acesso a tantos pontos de vista, mas estamos cada vez mais iguais. Tudo parece bege, pinterestificado, instagramável, performático. Estamos mais normalizados. Todos se projetam como requintados, mas simples; efervescentes, mas caseiros; interessantes, mas comuns. “E tá tudo bem”.

A minha existência digital me cansou. Olho para tudo o que as redes sociais representam e me dá asco. Fico pensando em como os escritores de décadas atrás faziam suas pesquisas. Como os jornalistas verificavam seus fatos. Havia todo um ritual de ir até a biblioteca, pegar uma revista, puxar um arquivo, ler um artigo. As pessoas assistiam a palestras, se conectavam com os seus pares, participavam de uma roda de debates. Qualquer coisa.

Havia contato com a humanidade presente no produto do pensamento. Hoje é tudo conteúdo para ser consumido, produto para se vender, gatilho mental para lá e para cá. Quem é que faz alguma coisa hoje que não seja para ganhar dinheiro? Até os hobbies foram monetizados (outra palavra horripilante).  Isso sem entrar na discussão sobre a “inteligência” artificial, que não merece nem letra maiúscula. Deixo isso para outra hora.

Muitas vezes acho que fracassamos enquanto sociedade. Que nunca pudemos tanto, mas realizamos tão pouca coisa significativa. Uma viagem só existe se compartilhada no feed. Um aniversário só é lembrado se postado nos stories. Os relacionamentos são reels enviados. O humor são memes momentâneos.

Poucas coisas são mais broxantes do que as chamadas contemporâneas, no hype, em alta. E aqui eu puxo para a literatura, se é que você estava se perguntando que horas isso iria acontecer. Tendo a fugir de listas de best-sellers, livros famosinhos no TikTok, autores “agraciados” pela Netflix e até clássicos repaginados para a Geração Z, Alpha ou seja lá qual for a próxima.

Eu queria poder dizer que “não é nada contra…”, mas eu estaria mentindo. A situação é tão crítica que conseguiram estragar até um assunto legal como dinossauros, tornando-os CEOs e escrevendo uma franquia sobre isso.

Estou cansado, acredito. Cansado de livros ruins, charlatões, coaches, maus motoristas, karaokês e lugares que vendem açaí com leite ninho. Cansado de não ter tempo, de ter stories em todo aplicativo, de aplicativos em geral; de tecnologia, na verdade. De gamers, influencers, streamers, resenha, palhaçadinha e six-seven. De ter que alugar músicas, filmes, jogos e livros. De acreditar no corpo no shape, sem bomba, só com quinze minutinhos em casa. De ter tudo na ponta dos dedos, no prato ou no bolso.

Estou cansado de camisetas que esgarçam a gola, de cadernos que não são costurados, de paredes brancas e de ser aesthetic. De comidas que não têm o mesmo gosto de anos atrás, mesmo tendo mais gordura e mais açúcar. Mas também estou cansado do influencer que diz que dá para substituir uma pizza por arroz com ovo.

Estou cansado de esperar por Godot, assim como Vladimir e Estragon, na obra de Samuel Beckett, cansado do mundo adulto falso e cafona odiado por Holden, em O Apanhador no Campo de Centeio, e até do esforço patético de viver em uma sociedade disfuncional, como o Henry do Bukowski.

Não me entenda mal, eu gosto da vida. Gosto de viver. Gosto das pessoas, dos animais, da natureza, das ciências. Muitas vezes tenho a esperança de um Hobbit, noutras a fé inabalável de Whitman, ou a singeleza que pode ser experimentada em O Pequeno Príncipe.

Gostaria que tudo andasse mais devagar, sem deadlines, jobs, gourmetização ou qualquer palavra pedante em inglês para dizer algo que poderia muito bem ser dito em português. Que as coisas literalmente fossem mais difíceis em vários aspectos, porque a comodidade nos estragou.

Posso ser contraditório, paradoxal e até mesmo hipócrita, se você preferir. Mas não me permito nunca ser raso, nem indiferente. Mesmo que signifique reconhecer um erro e corrigir a rota, com a dose certa de autocomiseração. Como diria Gramsci:

“A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo dos inovadores, é a matéria inerte na qual afundam rapidamente os entusiasmos mais esplêndidos, é o pântano que cerca a velha cidade e a defende melhor que as mais rígidas muralhas, melhor que o peito dos seus guerreiros, porque envolve em seus vórtices lodosos os agressores, dizimando-os e desencorajando-os até que desistam do empreendimento heroico.”

Então saquem suas baionetas, seus lápis e pincéis, endureçam-se sem perder a ternura, parem de consumir o que deve ser vivido e de viver o que deve ser eliminado. Porque nós vamos à guerra.

Lucas Jensen é jornalista, publicitário e escritor, formou-se em 2019, mas trabalha com comunicação há mais de 15 anos. O autor do livro “Continue Voltando: histórias de recuperação” tem um altar para Haruki Murakami, é mestre em dar pitacos, fã de livros clássicos, colecionador de listas de leitura, pai de pet e marido de psicóloga.

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