segunda-feira, 23 fevereiro, 2026
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Marcela Dohms ensina comunicação médico-paciente

(FINAL)

Marcela Dohms
Marcela Dohms

Realista, a doutoranda em Medicina pela USP Marcela Dohms, coordenadora da Residência de Medicina da Família da UFPR/Secretaria de Saúde de Curitiba, professora da UFPR e da Faculdade de Medicina Pequeno Príncipe, e médica de saúde de Curitiba, não vê a curto prazo que a MF no Brasil se equipare à da Inglaterra ou da Espanha, que conhece. Mas acha que ‘as coisas vão indo bem’:

— A curto prazo não vejo aqui avanços em relação à comunicação como as da MF da Inglaterra, que coloca até telefone 24 horas para a tradução à disposição de médicos. Lá é muito grande o número de imigrantes e muitas vezes a anamnese e todo o entendimento com o paciente só podem ocorrer com o apoio desse tradutor telefônico.

Marcela sabe que as muitas realidades de MF da Inglaterra e Espanha não estão chegando no Brasil, mas que a cultura para essa realidade vai se aprimorando aqui. E de Curitiba – assim como Florianópolis, onde ela presidiu a Associação Catarinense de Medicina da Família, são cidades exemplo.

2 – A FALA DO POVO

Em atendimento familiar (fazendo visitas)
Em atendimento familiar (fazendo visitas)

Provoco Marcela, perguntando-lhe sobre como as equipes da MF vão traduzindo e se familiarizando com a linguagem popular, especialmente na classificação de doenças pelas camadas mais pobres da população, com baixa escolaridade.

E saco: “A ‘ulça’ incomoda muita gente? ” (no caso, ‘ulça’, traduza-se por úlcera).

— “O primeiro passo para um bom resultado em MF é respeitar a língua do povo, entendendo-a, sem preocupações em corrigi-la. Afinal, se trata de habilidade de competência cultural na qual nos devemos inserir, durante o atendimento, pelo menos, ” explica.

Não sei como a jovem médica consegue desdobrar-se para atender – e com qualidade, que é sua marca – uma enorme agenda. Por isso, até não espero muito, quando lhe indago sobre os primeiros passos da Medicina de Família em Curitiba.

Ela, no entanto, não tem dificuldades em falar sobre os precursores dessa especialidade (ou subespecialização, como também é chamada) entre nós.

Participando de congressos médicos
Participando de congressos médicos

3 – COMO COMEÇOU

Marcela recorda que tudo começou há uns 20 anos, “mais ou menos”, a partir de um ciclo de conferências feitas por médicos canadenses vindos de Toronto. Eles foram o sal da terra essencial para atrair os pioneiros médicos que, encantados com a realidade do Canadá – então já exemplar em MF -, se engajaram nessa modalidade de medicina coletiva. Um dos primeiros foi o antológico Dante Romanó Junior, verdadeiro apóstolo da medicina, professor da UFPR, um “sacerdote” impregnado de ideias e idealismo em favor de uma medicina coletiva que levasse o médico de família ao maior número de moradias possível. Especialmente à baixa renda.

4 – DANTE E OUTROS

PUERICULTURA: Atendento crianças
PUERICULTURA: Atendento crianças

Dante – lembro a Marcela – era um ser despido de quaisquer vaidades, a ele importava exercer seu múnus de curador de corpos (e, às vezes, de almas).

Visitava os pacientes, muitas vezes, pilotando sua bicicleta, o que era interpretado por alguns colegas como gesto “simplório e incompatível com a dignidade da profissão”, expressão que cheguei a ouvir de um catedrático já levado pelo Anjo da Morte.

Mas foi assim mesmo que Dante – filho do antológico Dr. Dante Romanó, médico das famílias curitibanas de parte do século 20 – foi implantando o programa Médico da Família (ou Medicina da Família).

Há outros que aceitaram, com Dante Jr., quase que de imediato, a sugestão-proposta dos canadenses, gente que estava firme na profissão, com clientela e nome consolidados. Como os médicos Hamilton Wagner, João Schneider, Vera Drehmer e Ana Santana.

— Eles hoje repassam suas experiências, preciosidade sem preço, sendo preceptores de novos médicos da MF em Curitiba, comemora Marcela.

5 – ESPECIALISTAS?

Francesc Borell
Francesc Borell

Marcela fala rápido, as idéias brotam, ela tem muito a dizer. Às vezes, chega a fazer observações (educadas, é certo, mas com a intimidade de filha para pai) a Jubal que a acompanha num café matinal em minha casa em junho deste 2015. O pai faz uma sugestão, não aceita pela filha, e pronto.

Ela não se detém, não tem tempo a perder. Ainda não era tempo de lazer, como correr 5 quilômetros, 3 vezes por semana, no Parque Barigui.

A médica, ex-preceptora de Medicina da Família da Faculdade de Medicina de Santa Catarina, parece-me ter ligado o piloto automático. Responde sem titubear à espécie de pingue pongue a que a submeto:

– Medicina da Família (MF) é um dos nomes para a mesma realidade, que também pode ser identificada como Saúde Coletiva e Atenção Primária, responde.

Para ela, o bom clínico em MF é aquele que sabe tratar das doenças prevalentes na população. “A Medicina da Família tem a obrigação de resolver pelo menos 90% dos casos médicos que lhe chegam. Só 10% deles são encaminhados para especialistas”.

Entusiasmada com a MF, mergulha por minutos nas realidades que viu em sua pós-graduação em Holanda e Espanha, onde, diz, é obrigatório o acesso do doente à MF. E também onde o médico de família chegará quase de imediato ao doente.

Com uma certeza meio que religiosa sobre o caminho escolhido, Marcela, essa pregadora da Medicina de Família, não deixa por menos, não transfere responsabilidades: “A Medicina de Família existe para dar solução”.

E é dentro desse tônus que ela vai comandando a preparação dos médicos de família de Curitiba, certeza que acentua quando diz, simplesmente: “A Residência de Medicina de Família é padrão ouro de ensino. Estamos no ponto maior de eficiência e qualidade”, comemora enfaticamente.

6 – A ARTE DE ENSINAR

A objetividade e segurança com que encara sua especialidade, com respostas prontas, claras e bem fundamentadas, não me deixa dúvida:

Marcela é a sólida professora de Medicina de toda uma nova geração de médicos que será formada sob esse novo catecismo. E que terá a oportunidade de também estudar em livros em que ela transferiu parte de sua experiência. Um deles, Entrevista Clínica”, do espanhol Francesc Borell (editado pela Artemed), com revisão técnica por Marcela.

Outra obra é o “Tratado de Medicina de Família”. Cuida do capítulo relação médico paciente, um dos temas que dominam a atenção de Marcela Dohms. No livro, volume 1, ela escreve 2 capítulos com o autor catalão, uma referência mundial em comunicação médica. Nada mau para uma menina que apenas queria, com 6 anos – conta seu pai, Jubal – ser médica. Mas que, nos sonhos e brincadeiras infantis, já se apresentava para familiares e personagens que compunham suas simulações lúdicas, como professora.

O lúdico precognitivo realizou-se amplamente, e cedo, em Marcela Dohms.

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