quinta-feira, 7 maio, 2026
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Divã de Ideias: Dia cinza

Por Fernando Simonetti – Há algum tempo gravei um vídeo em rede vizinha que teve uma repercussão interessante e resolvi escrever sobre esse tema numa espécie de intervalo entre temas de consultório.

Neste vídeo, fiz uma provocação sobre a habitualidade dos dias cinzas que se repetem em nossas vidas – para os curitibanos, um prato cheio, não?

Viver é uma tarefa envolvida por amargas doses de rotina que, invarivalmente, nos remetem de forma direta aos dias cinzas de garoa fina e intermitente. Daqueles que imediatamente nos fazem retomar as questões originárias sobre o sentido de tudo isso – de onde viemos, para onde vamos e porque estamos aqui.

Especialmente nestes momentos em que nos indagamos sobre o porque das coisas, talvez o caminho mais víavel que precisemos encontrar seja algo entre o persistir e a curiosidade pelo que virá em um novo dia.

Por mais clichê que nos pareça a ponderação de dar sentido próprio às nossas vivências ela é, também, inequivocamente real e eficaz.

Justamente porque nem todo dia necessita de uma razão especial. Aliás, seria extremamente sufocante se precisassemos busca-la a todo custo para todo instante, em busca de simboliza-lo de alguma forma.

Alguns dias só precisam ser… vividos.

Há um outro problema quando buscamos sentido em demasia e, invariavelmente, não encontramos. Estes outros problemas geralmente se materializam em forma de fugas particulares.

Conhecemos diversas delas ao longo da vida e estabelecemos uma lista inconscientemente criteriosa daquelas com as quais fazemos algum tipo de conexão.

Sem perceber dispomos delas quando sentimos essa ausência de sentido para tentar desesperadamente alguma validação da própria vida e, na maior parte dos casos, retornamos ao lugar de origem.

Isso acontece porque fugir geralmente é mesmo um retorno. Por serem tipos fugazes de escape, as fugas geralmente nos colocam na mesma posição.

Mais do que isso, nos confirmam que fugir de nós mesmos é uma das tentativas vãs de significar algo impossível de significação.

Talvez para que possamos aguardar um novo dia e um novo sentido na certeza de que ele, eventualmente, chegará.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.

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