quinta-feira, 2 julho, 2026
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Divã de Ideias: A urgência do diagnóstico

Por Fernando Simonetti“O que veio antes: o ovo ou a galinha?” A velha charada ainda nos intriga. Mas, e se a adaptássemos para a era digital: “O que vem antes: o sujeito ou o diagnóstico?” A resposta, que antes parecia um sonoro “Depende!”, hoje já não é tão simples assim.

O avanço da ciência e da psicologia trouxe consigo um progresso notável nas ferramentas diagnósticas. Instrumentos de maior precisão, pesquisa e estudo avançados e refinados, além da consequente ampliação no saber do sofrimento humano.

Esse legado é, sem dúvida, uma das maiores conquistas em diversas áreas do conhecimento, oferecendo-nos um mapa mais claro para entender nossa própria complexidade.

Contudo, todo progresso quase sempre carrega consigo certas armadilhas como efeito colateral. No campo do diagnóstico, a principal deles é uma subversão sutil, mas poderosa: passamos a nos ver quase que inteiramente como sujeitos dos nossos diagnósticos. O debate epistemológico, que parecia infinito, ganhou semblante de finitude.

Não se trata de culpar o indivíduo, tampouco o progresso. Afinal, somos nós que o construímos, justamente para nos reconhecermos e validarmos – tanto para nós mesmos quanto para o outro. Em algum momento, precisaríamos de palavras e estruturas que nos dessem sustentação, e isso se materializou através de pesquisa, estudo e análise. O problema não reside aí.

Vivemos sob o culto da urgência. Em um mundo acelerado, queremos sempre saber logo, definir logo, tratar logo e resolver logo. Apressamo-nos em decifrar quem somos ou por que agimos de determinada forma.

E essa pressa não é apenas nossa. Parte dos profissionais envolvidos na construção de possíveis diagnósticos também parece trabalhar sob essa mesma pressão.

Há situações em que a melhor escuta não é aquela que fecha mas aquela que demora. Demora o tempo necessário para que se conclua – ou não – com respaldo, clareza e humanidade.

E quando se apressa? Geralmente acabamos preenchendo parte de nós com a primeira “peça” que nos oferece algum conforto, uma etiqueta que, por vezes, simplifica demais a complexidade de ser. E é justamente nesse ponto que surge um novo desafio.

Na verdade, surgem alguns deles.

Além de conhecermos e nomearmos uma parte nossa de forma desajustada, a urgência ainda contamina o ritmo de nossa própria singularidade.

Assim, apresentamo-nos como parte daquilo que somos em antecipação àquilo que nos designou em maior parte até então. É como se o diagnóstico se apresentasse antes do sujeito, invertendo uma suposta lógica de importância.

Caso apressemos um pouco mais esse ritmo corremos grande risco de sublimar o que ainda nos resta de nossa própria subjetividade.

Talvez nos caiba desacelerar e suportar um pouco mais a dúvida sobre parte de quem somos.

Porque o mundo parece cheio de certezas e pobre de hipóteses.

E o caminho destas até aquelas, geralmente, costuma ser longo…

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.

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