Ato I: O dilema do sangue e as fronteiras da identidade
Por Marilia Mesquita – Carrego no sangue o mapa de uma viagem que começou muito antes de mim. Sou sansei, a terceira folha de uma árvore cujas raízes perfuraram a terra do Sol Nascente para florescer em solo verde e amarelo. Por isso, quando a Copa do Mundo colocou Brasil e Japão frente a frente, vi o anúncio do único jogo que eu realmente não queria que acontecesse. Enxergar aquele confronto era encarar um dilema vivo: de um lado, a força firme do círculo carmesim; do outro, a imensidão do céu brasileiro. Quando o apito inicial ecoou, percebi que meu coração não saberia escolher um lado, restando apenas a angústia e o orgulho de ver dois mundos tão meus colidindo na mesma e única língua: a paixão pelo futebol.
No entanto, habitar essa fronteira identitária em dias de confronto direto é caminhar por um terreno sinuoso. Desde cedo, nós, descendentes, aprendemos a equilibrar os pratos de uma balança invisível. Dias antes da partida, os ataques disfarçados de humor já começavam a pipocar nas interações cotidianas e nas redes sociais. Foram desde os trocadilhos infantis e as piadas batidas com os nomes e sobrenomes dos atletas até comentários abertamente preconceituosos direcionados ao goleiro Zion Suzuki.
O espanto maldoso de parte do público diante de um atleta negro defendendo o Japão revelou o desconhecimento e a negação da miscigenação global, como se a identidade e o direito de pertencer a uma nação estivessem presos a um estereótipo engessado. Comentários que, embora muitas vezes envelopados no manto do “humor inofensivo”, trazem aquela pontada sutil e desagradável de xenofobia e racismo, tentando empurrar o diferente para fora e julgando quem tem o direito de representar sua própria pátria.
Ato II: A filosofia transoceânica e a semente no gramado
O que poucos compreendem é que a nossa força interna para lidar com esses pequenos ruídos e preconceitos vem de uma palavra-guia que escutamos desde que éramos crianças pequenas, toda vez que o calo apertava em casa: Ganbatte. Era o eco da voz dos nossos pais e avós diante de uma prova difícil na escola, de um tombo no parquinho ou de um desafio que parecia intransponível. “Ganbatte!” — dê o melhor de si, aguente firme, persista com dignidade. Essa expressão japonesa, que carrega a essência de uma resiliência silenciosa, moldou meu caráter e me acompanhou de perto durante a vida toda.
O Ganbatte não é apenas um clichê de incentivo, mas uma filosofia de vida que sobreviveu à travessia do oceano. Ela nos ensina que não existe “boa sorte”, pois o acaso não nos pertence; o que nos pertence é o esforço. É uma visão que desloca o peso do resultado final para focar inteiramente na nobreza da jornada. Sob essa ótica, o verdadeiro fracasso não é perder, mas sim desistir sem entregar o seu máximo. É o entendimento de que, mesmo quando o resultado desejado não vem, a dignidade permanece intacta se você deixou tudo de si no caminho. Caminha lado a lado com o Gaman, a arte de suportar o insuportável com paciência, como o bambu que se curva na tempestade, mas não quebra.

Esse espírito se tornou parte indissociável do futebol japonês após a dolorosa desclassificação nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, no episódio conhecido como “A agonia de Doha” — quando a seleção perdeu a vaga nos segundos finais num empate com o Iraque. O trauma se transformou em um marco. Desde então, o Japão transformou o esporte em uma liturgia de constância e respeito, onde cada passe é um voto de disciplina e cada corrida reflete uma consistência inabalável. O futebol deixou de ser um jogo importado para se tornar uma expressão de sua própria alma, moldada pelo suor e pela busca paciente da perfeição. Essa paixão japonesa pelo esporte não brotou do vento, mas sim de uma semente plantada com afeto e maestria por Zico, um brasileiro que ensinou o arquipélago a sonhar com os pés.
Ato III: O manto, o bailado e a liderança na queda
Essa beleza silenciosa explodiu em um fenômeno que varreu o mundo este ano. As campanhas publicitárias transformaram os jogadores em guerreiros de lenda, misturando a arte dos animes com o drama do gramado, fazendo com que a camisa da seleção se tornasse poesia pura em forma de manto. Eu mesma caminhei por lojas antes mesmo do início da Copa, ouvindo que as peças haviam sumido, “vendidas como água” que corre mansa e rápida. Só pude vestir essa identidade e honrar meu sangue porque meu namorado, num gesto de delicada cumplicidade, se esforçou para me dar o presente mais bonito da temporada.
O jogo foi um bailado de tensões e delicadezas, um diálogo tenso entre a ginga imprevisível do Brasil e a geometria sagrada do Japão. Duas pátrias distantes unidas pelo mesmo compasso de espera, dois povos respirando no mesmo ritmo, torcendo pela eternidade daquele instante.
Quando o apito final decretou a vitória brasileira, um suspiro de alívio e festa ecoou pelas minhas veias tupiniquins. O peso da camisa canarinho, com sua história tecida em fios de ouro, acabou por prevalecer no placar. Mas o verdadeiro espetáculo de liderança e caráter veio logo após o fim da partida, respondendo à altura de qualquer deboche ou preconceito vindo das arquibancadas ou das telas.
Em vez do abatimento ou da busca por culpados, o técnico japonês reuniu toda a equipe no centro do gramado. Ali, no círculo central, ele exerceu o verdadeiro poder de liderança nos momentos difíceis: reergueu as cabeças de seus atletas, relembrou o esforço despendido e blindou o grupo com palavras de orgulho, lembrando-os de quem eram.
Logo em seguida, em um dos gestos mais poderosos e emblemáticos do esporte mundial, o comandante e seus jogadores caminharam juntos em direção ao setor onde estava a torcida japonesa. Alinharam-se e curvaram-se diante de seus torcedores, transformando o lamento da derrota em um pedido de desculpas silencioso e um profundo agradecimento pelo apoio.
Ao fim da tarde, compreendi que o futebol é a única ponte capaz de ligar o Oriente e o Ocidente sem que nenhum lado precise ceder. Enquanto as piadas e o preconceito mesquinho revelam a pequenez de quem assiste, a postura da seleção japonesa mostrou a grandeza de quem joga. Minha metade brasileira comemora a vitória; minha metade japonesa celebra a honra de uma jornada linda, legítima herdeira do “Ganbatte”.
Arigato, Nihon!

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.
