EMERICH, PE. HANEIKO, REV. ELIAS,”TICO LOPES”, KIRINUS…
Há casos paradigmáticos, que guardei na memória, de religiosos católicos e protestantes que tiveram enorme poder de convencimento das massas – e das elites decisórias; e que, no entanto, jamais colocaram essa realidade nem em busca de dinheiro, muito menos votos e poder secular.
Um deles, que sempre me chamou atenção por sua capacidade de comunicação e profunda espiritualidade, foi o pastor presbiteriano (Igreja Presbiteriana do Brasil, paróquia da Rua Com. Araújo, em Curitiba), reverendo Osvaldo Emerich.
Ao desaparecer do mundo dos vivos nos anos 1990, Emerich deixou legados espirituais que se multiplicam até hoje entre os presbiterianos. Um deles, com certeza, o de ter mostrado que a pregação calvinista não precisa andar atrelada à política partidária. Isso embora os presbiterianos de Curitiba tivessem tido sempre em seus quadros homens públicos como os Lupion.
Já o colega de ministério pastoral de Emerich, Elias Abrahão, outro notável orador, dono de uma espiritualidade “mais secularizada” – como me adverte um teólogo batista -, envolveu-se até o pescoço na política partidária, sem, no entanto, praticar maracutaias como são vistas hoje no Executivo e Legislativo do país.
Fiel admirador do hoje senador Roberto Requião, com quem teve, no entanto, muitas refregas, Elias foi secretário de Meio Ambiente de RR na Prefeitura de Curitiba e depois no Governo, secretário estadual de Educação.
Peemedebista roxo – acho que foi, na verdade, mais herdeiro do chamado “velho MDB de guerra” -, Elias não era de levar desaforo para casa.
Entrava em embates verbais, em discussões, expunha-se por suas teses.
Ganhou inimigos e muitos amigos. Era dono de um coração generoso.
Foi depois deputado federal, morrendo no cargo, num acidente de carro.
A votação de Elias Abrahão não vinha basicamente da igreja: ele era um ser de ampla permeabilidade na sociedade secular, especialmente entre jovens.
CÔNEGO BERNARDO
O quase lendário cônego Bernardo, um dos ícones católicos dos anos 1950, fundador do conhecido Movimento de Irmãos, e que foi pároco de N.Sa. de Guadalupe, de Curitiba, nunca se interessou pelas urnas. Embora não fossem poucas as solicitações partidárias que recebeu, especialmente de nomes que despontavam com grande força na política paranaense daqueles dias, como Ney Braga. Muitos o queriam deputado.
Em compensação, de Apucarana veio para Curitiba, e expôs-se em todo o Paraná, o famoso padre Haneiko, por três vezes eleito deputado estadual.
Descendente de ucranianos, Haneiko tinha grande penetração no mundo rural paranaense, nos anos 1960, quando se abrigou na sigla do PDC de Ney Braga e Montoro. Era um conservador político e totalmente filho da igreja.
Não posso afirmar que o padre tenha se projetado politicamente só pelo exercício pastoral. Ele era um animal político por excelência e não tinha dificuldades de entender os sentimentos dos eleitores e estabelecer empatia com o universo que o elegeria. Nunca deixou de defender postulados ortodoxos da Igreja, o que apenas confirmava sua carreira num tempo de hegemonia da Igreja. “Era o tempo da Roma Locuta, causa finita”, recorda-me um analista do mundo cristão que encontro na Igreja Holiness de Curitiba (protestantes de linha metodista e formados na colônia japonesa brasileira).
JOGO NEBULOSO
Nem todos os políticos gerados ou mantidos graças ao voto das Igrejas fizeram o jogo nebuloso de “voto, poder e dinheiro”. Um ótimo exemplo de ética na política, apoiando a Igreja Católica em suas ações sociais, foi o de Antonio Lopes Junior, que se notabilizou como deputado estadual nos anos 1960/70. Nascido e criado em Irati, “Tico Lopes”, como ficou conhecido, era um congregado mariano de primeira hora e nunca escondeu ser um ativo Integralista, defensor dos postulados de Plínio Salgado. Os temas educacionais foram salientes em sua vida pública, assim como a família.
Lopes Junior viveu como homem de classe média, e foi basicamente um professor.
KIRINUS E A TL
No mundo evangélico do Paraná, não posso esquecer de nominar Gernote Kirinus, pastor da Igreja Evangélica Luterana Sinodal. Dono de sólida formação cultural, ele foi sempre alguém dividido entre o altar e as urnas. Pelo menos foi essa a imagem que passou.
Desde cedo, antes até de ordenar-se ministro luterano, Kirinus não escondia suas ambições políticas, a intenção de conquistar votos, o que teria ficado claro já na vida do seminarista, em São Leopoldo.
Assim, a Teologia da Libertação foi o ponto de partida para o pastor – que serviu em cidades de forte presença germânica no Oeste e Sudoeste do Paraná. A Teologia da Libertação, cujo maior expressão brasileira é Leonardo Boff, ex-frade franciscano, foi por Gernote Kirinus absorvida na fonte, com Gutierrez, no Peru.
(PROSSEGUE)
Leia mais:
Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 1ª parte
Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 2ª parte
Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 3ª parte
