
OS NOVOS PÚLPITOS
Os modernos meios de comunicação social – começando pelo rádio – fizeram mais para a difusão das mensagens religiosas na América Latina do que, diria, até as seculares campanhas de evangelização iniciadas com os espanhóis e portugueses, no século 16, quando eles vieram para as Américas em nome de Deus e do Rei.
Nos Estados Unidos não foi menos impressionante a influência do “mass media” na pregação, de forma particular, das mensagens protestantes/evangélicas, e com grande densidade nos anos 1960/70 pela televisão. Lembram-se do Oral Roberts, pastor? Ele arrebatava parte da América, assim como o evangelista Billy Graham.
LOUZADA E EURÍPIDES
No Brasil, os primeiros programas religiosos fortemente voltados à pregação religiosa de que me lembro eram da Igreja Católica na Rádio Nacional. Isso sem contar a Rádio Aparecida que, nos anos 1950 de minha memória para esses fatos, já reinava absoluta como emissora religiosa, a partir de Aparecida, em São Paulo. Em ondas curtas e médias, tinha alcance mundial.
Mas foi na então poderosíssima Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, que registrei com intensidade o envolvimento, por exemplo, de programas religiosos com o mundo da política, em busca de eleitores e votos. Um deles era o de Eurípides Cardoso de Menezes, um católico muito bom de palanque, que depois acabaria, graças ao microfone – ou sobretudo por causa dele – conquistando mandatos na Câmara dos Deputados.
Menezes era homem disciplinadamente, falava bem, com fundamento, estilo meio clássico de pregar, obediente à hierarquia, ao então cardeal do Rio, dom Jaime Câmara. Até por isso tinha tanto espaço naquela rádio estatal. Coisa inconcebível hoje: não havia espaço, no entanto, para outras correntes religiosas na emissora da Rua Praça Mauá 7, Edifício A Noite, um dos símbolos (então do Rio de Janeiro), mantida pela União.
Depois do Eurípides Cardoso de Menezes vieram outros políticos escorados na então quase hegemônica igreja reinante no país.
Outro que ficou em minhas lembranças foi o Julio Louzada, que começou com o programa diário “Ave Maria”, na Rádio Nacional.
Tinha audiência enorme, apontavam os Ibopes de então (seria a Marplan?).
PATIO DE MILAGRES
Com o passar dos anos e suas pregações um tanto melosas, de um catolicismo devocional apenas, e sem ação na comunidade abrangente em busca de mudanças, Julio Louzada fez-se vereador e depois deputado estadual no Rio.
Sua liderança deve ter seguido, se bem me lembro, até o começo dos anos 1970, já em outras rádios. Sua palavra atraia multidões e formavam-se filas nas portas das rádios em que os programas (ao vivo) eram transmitidos. Depois, um filho seguiu no legislativo, em lugar de Julio Louzada.
Era um verdadeiro pátio de milagres: Louzada distribuía santinhos, orações, promessas de bênçãos materiais e espirituais e também remédios, roupas, cadeiras de rodas, muletas, dentaduras, para uma multidão de deserdados de toda sorte. Só não fazia milagres, ao contrário de muitos televangelistas de hoje que, além de curas de toda sorte, garantem expulsar demônios e acabam, na prática, quase sempre se elegendo a cargo legislativo ou indicando seus prepostos.
Nos mesmos anos 50, em que padre Victor Coelho era o grande astro da Rádio Aparecida, com sua pregação piedosa e mensagem de um vovô querido das multidões, outro padre domina parte do cenário católico pelo rádio. Era padre Donizette Tavares de Lima, da cidade paulista de Tambaú, cujas benções e mensagens eram transmitidas diariamente por poderosas emissoras, como a Rádio Tupi, de São Paulo.
EM SANTIDADE
No final dos 1950 – se não me engano – o padre morreu “com odor de santidade”, como os católicos diziam antigamente para expressar a fama de santo de um defunto piedoso. E morreu também cercado de políticos, que tentaram de todas as formas usufruir do prestígio do sacerdote. Adhemar de Barros foi um deles. Mas Donizette resistiu “heroicamente” aos assédios e cheques até o fim.
O exemplo de Donizette foi bem ao contrário do que aconteceu recentemente em Brasília, onde o ex-senador Gim Argello recebia parte de propinas de empreiteiras por meio de depósitos na conta de uma paróquia – São Pedro. Bem ao contrário também daquela igreja da Assembleia de Deus paulista na qual a LavaJato identificou polpudos recursos de empreiteiros destinados ao “evangélico” Eduardo Cunha, um dos péssimos exemplos do uso da religião na política brasileira, e dono de grande audiência na Rádio Melodia, do Rio de Janeiro, em programa em que “prega o Evangelho”.
(Prossegue)
Leia mais:
Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 1ª parte
Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 2ª parte
