Assessoria – Quatro jovens indígenas da comunidade Kaingang, que vivem no Parque do Mate, em Campo Largo, a 20 km de Curitiba, no Paraná, estão escrevendo uma história ainda rara no país: o acesso ao ensino superior como caminho de transformação social dentro de suas próprias comunidades. Com formatura prevista para 2030, eles cursam Letras e Pedagogia e vivem atualmente uma etapa decisiva — o letramento digital, que permitirá não apenas acompanhar as aulas, mas também navegar com autonomia no ambiente virtual da Uninter, instituição que possibilitou o acesso por meio de vestibular.
Coube a Uninter a instalação de equipamentos tecnológicos, infraestrutura na aldeia onde vivem e a capacitação dos estudantes para o uso dessas ferramentas, que aconteceu no campus da Universidade em Curitiba. Mais do que inclusão educacional, o processo representa a superação de uma das principais barreiras enfrentadas por populações indígenas no Brasil: o acesso à tecnologia e à educação mediada por plataformas digitais.
A iniciativa faz parte do projeto piloto do Programa Diversidade Racial para a inclusão de povos originários na educação superior e é acompanhado pela equipe de professores da Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas da Uninter, com a missão de garantir a permanência dos estudantes e o êxito na aprendizagem. A professora Karina da Costa Santos, que é indígena e leciona sobre Étnico Racial, integra a comissão que atua junto aos alunos.
“Esse projeto é um grande divisor de águas para a Uninter, pois representa a concretização de um projeto idealizado há anos para ofertar o ensino superior e formar professores indígenas em aldeias do Paraná e de outras regiões”, afirma o pró-reitor de Graduação da Uninter, Rodrigo Berté. “As novas gerações terão professores que, além de se apropriarem dos conteúdos, vão ensiná-los na sua língua materna, a língua Guarani”, finaliza.
O desafio não é pequeno. Dados recentes do Censo apontam que apenas 8,6% dos indígenas com 25 anos ou mais possuem ensino superior completo no país. Embora o número tenha crescido nos últimos anos, ele ainda evidencia a desigualdade histórica no acesso à universidade. Em um universo de cerca de 1,7 milhão de indígenas no Brasil, distribuídos em 391 etnias e falantes de 295 línguas, o ensino superior ainda é uma conquista para poucos.
É nesse contexto que a trajetória dos quatro estudantes do Parque do Mate ganha relevância. Ao se prepararem para ingressar plenamente no ensino superior, eles também se tornam referências dentro de suas comunidades, ampliando perspectivas para novas gerações.
O momento da formação também dialoga com o calendário simbólico. Abril é marcado no Brasil pelo Dia dos Povos Indígenas, celebrado no dia 19 deste mês, data que convida à reflexão sobre a valorização das culturas originárias e sobre os desafios ainda presentes na garantia de direitos, entre eles, o acesso à educação de qualidade.
Mais do que números, a presença desses estudantes na universidade sinaliza uma mudança gradual: o fortalecimento da educação como ferramenta de autonomia, preservação cultural e desenvolvimento sustentável dentro dos territórios indígenas. Até 2030, quando concluírem suas graduações, eles não estarão apenas recebendo diplomas — estarão ajudando a reescrever estatísticas.
