Negócios & Gente por Aline Cambuy – Há situações em que trabalhar bem significa, literalmente, trabalhar contra o relógio. Foi o que aconteceu recentemente com uma equipe do Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba. Em uma operação que envolveu diferentes cidades, profissionais e instituições, um paciente recebeu um novo fígado e deixou o hospital apenas seis dias depois da cirurgia.
A história começa com um gesto que não aparece nas salas de reunião, nos centros cirúrgicos ou nos indicadores de desempenho: a decisão de uma família de doar os órgãos de um ente querido. A partir daí, uma complexa engrenagem precisou funcionar com precisão.
O fígado havia sido captado em Maringá e inicialmente destinado a outro receptor, mas o transplante não pôde ser realizado. Havia, então, uma oportunidade que não poderia esperar. Azuil Gomes Teotonio estava em Foz do Iguaçu e precisava chegar rapidamente ao Hospital Angelina Caron, onde o órgão poderia ser aproveitado.
O primeiro desafio foi logístico. Azuil embarcou em um voo comercial de Foz do Iguaçu para o Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais. De lá, uma operação articulada pela rede pública de urgência e emergência levou o paciente de helicóptero até o hospital, reduzindo um deslocamento terrestre que poderia consumir cerca de 40 minutos, dependendo do trânsito.
Entraram em cena a Diretoria de Urgência e Emergência de Foz do Iguaçu, a Coordenação de Urgência e Emergência do Paraná, o SAMU Curitiba, a equipe aeromédica e o Núcleo de Operações Aéreas da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Mas a logística era apenas uma parte da equação. Enquanto o paciente percorria o Paraná, o relógio do órgão continuava correndo.
Sete horas fora do corpo
Quando a cirurgia começou, o fígado já estava havia aproximadamente sete horas fora do organismo do doador. Em transplantes, o tempo de preservação é um dos fatores críticos para o sucesso do procedimento.
Experiência e agilidade precisavam andar lado a lado. “Foi uma corrida contra o tempo desde o início. Precisávamos realizar o transplante com muita agilidade e segurança”, explica o médico João Eduardo Leal Nicoluzzi, coordenador e chefe do Serviço de Transplantes do Hospital Angelina Caron.
Segundo ele, o resultado não pode ser atribuído apenas à rapidez no centro cirúrgico. “Conseguimos concluir a cirurgia em 2h38, graças à experiência da equipe, à estrutura que o hospital mantém para transplantes e a uma mobilização que começou muito antes de o paciente entrar no centro cirúrgico”, afirma.
A força está na engrenagem

É justamente aí que essa história deixa de ser apenas sobre medicina e passa a falar também sobre gestão, trabalho em equipe e capacidade de resposta.
Um transplante não começa quando o cirurgião faz a primeira incisão. Exige profissionais preparados para atuar a qualquer momento, centro cirúrgico, anestesia, enfermagem, exames, UTI, acompanhamento pós-operatório e diferentes especialidades funcionando de forma coordenada.
“Não existe transplante realizado por uma única pessoa. Existe uma equipe inteira trabalhando para que aquele órgão possa chegar ao paciente e para que ele tenha assistência antes, durante e depois da cirurgia”, destaca Nicoluzzi.
A operação também mostrou a importância da integração entre instituições que, embora tenham funções distintas, precisaram atuar com um mesmo objetivo.
“Médicos, enfermagem, anestesia, centro cirúrgico, UTI e diferentes áreas do hospital precisam funcionar de maneira coordenada. Somamos isso ao trabalho extraordinário realizado pela Secretaria de Estado da Saúde e pelas equipes responsáveis pelo transporte. Foi essa união que tornou o transplante possível”, diz.
O Hospital Angelina Caron mantém seu Serviço de Transplantes desde 2001. Ao longo de 25 anos, a instituição ultrapassou a marca de 3,4 mil transplantes.
E o melhor indicador veio seis dias depois
Azuil evoluiu bem e recebeu alta hospitalar no sexto dia após o transplante.
Para Nicoluzzi, o desfecho é resultado de uma cadeia que envolveu dezenas de profissionais e diferentes instituições. “Quando vemos esse paciente deixando o hospital apenas seis dias depois, conseguimos dimensionar tudo o que aconteceu para que ele chegasse até aqui. Houve uma grande operação para transportá-lo, uma equipe preparada para recebê-lo imediatamente e um transplante que precisou ser realizado com rapidez e precisão”, afirma.
A história de Azuil atravessou diferentes cidades e mobilizou profissionais da saúde, equipes de transporte e várias instituições parceiras. No centro de tudo, havia um recurso que não podia ser ampliado, negociado ou recuperado: o tempo.
No caso de Azuil, essa engrenagem funcionou e ele voltou para casa com uma nova oportunidade de vida. No fim, por trás de cada minuto ganho, havia pessoas fazendo o que sabiam fazer melhor, juntas.
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*Aline Cambuy é jornalista com mais de 20 anos de experiência e atua na área da comunicação empresarial. Estudante de Psicologia, une seu olhar crítico e humano para construir narrativas que conectam pessoas e negócios.
