Por Reynaldo Jardim / Folha de São Paulo – 3.08.1983

Não se pode definir com precisão o que faz do curitibano e de Curitiba seres soturnos, insulados em seus casulos egocêntricos. Do clima à formação étnica, da falta de uma história rica e de uma tradição heroica a uma timidez congênita, arrola-se muito argumento, nenhum capaz de precisar a falta de nitidez do caráter curitibano.
ACOMODADOS
Tem-se a impressão que a cidade é cercada de montanhas com uma nuvem cinzenta pairando sobre a cabeça de uma burguesia que se acomoda e não se incomoda a não ser com seus próprios umbigos.
LERNER TENTOU
Jaime Lerner enquanto prefeito tentou através de um urbanismo colorido de flores e acrílicos, de pontos de encontros e espaços para eventos artísticos, de ruas de lazer e de preservação de casas, com algum interesse histórico ou sentimental para a cidade alterar o comportamento e o espírito das gentes que a habitam e se recusam a viver o espaço em que deixa o tempo passar.
NÃO HOUVE RESPOSTA
Curitiba não respondeu nem responderá de maneira positiva. Continuará taciturna, úmida e muda. Recusa-se ao escândalo e entrega-se à maledicência de suas ditas malditas bocas, apenas bocas sibilinas.
Aqui não se deseja a grande tragédia nem a gargalhante comédia. A farsa satisfaz a todos. Não se vive existencialmente, morre-se em surdina.
Dizem que agora, pretendem crucificar Jaime Lerner. Não é verdade.
Desejam apenas a pantomima de um julgamento que de qualquer maneira não permita que nas próximas eleições o ex-prefeito se articule politicamente. Tudo sem grandeza. Tudo muito pequeno e melancólico. O erro de Jaime Lerner foi tentar, através do urbanismo, abrir o espírito malsinado da comunidade para a afetividade fraternal. Não há banda de música capaz de animar mausoléus e catacumbas.

