terça-feira, 18 agosto, 2026
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O Fim da Rua: Uma carta de amor aos anos 80

Por Eliaquim Junior – O Fim da Rua (2026) resgata o espírito das aventuras dos anos 80 e presta uma bela homenagem ao cinema fantástico de Steven Spielberg. E faz isso tão bem que ainda consegue a proeza de fazer os últimos quatro filmes da franquia Jurassic Park parecerem apáticos e superficiais (e não são?).

Dirigido por David Robert Mitchell, do cult de terror A Corrente do Mal, e estrelado por Anne Hathaway (inimiga do ócio em 2026) e Ewan McGregor, o longa reconstrói aquela vida suburbana americana que se tornou praticamente um personagem dos grandes clássicos dos anos 70 e 80. É o mesmo universo de E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Os Goonies, revisitado mais recentemente por Super 8 e Stranger Things. Casas espaçosas com garagem e com “quintal” na frente, famílias aparentemente normais e uma vizinhança que, obviamente, está prestes a descobrir que o mundo é muito mais estranho do que parece.

No caso de O Fim da Rua, o bairro Oak Street, junto com a família Platt, é transportado para a era pré-histórica. Assim, do nada. De repente, os problemas cotidianos da família ganham uma nova dimensão: além das tradicionais discussões domésticas, agora é preciso lidar com dinossauros e a difícil tarefa de encontrar um caminho de volta para casa.

O filme é divertido, irreverente e surpreendente (tem duas sequências que certamente vão te pegar de surpresa), ademais, cumpre muito bem aquilo que promete. Mais do que isso, oferece aquele “abraço” nostálgico aos fãs do cinema de aventura ambientado nos anos 80, que, a essa altura, já pode ser considerado um subgênero cinematográfico. E O Fim da Rua parece saber exatamente o tipo de filme que quer ser.

Mas, além do escapismo de qualidade para toda a família, existe algo mais interessante por trás dessa aventura. A produção constrói sua premissa a partir de um elemento que acaba sendo também uma metáfora: o deslocamento temporal.

Em determinado momento, um personagem diz que gostaria de assistir à MTV. Parece apenas uma pequena referência oitentista, mas o texto carrega mais significado do que aparenta. Ela representa uma época em que a cultura pop ainda era, de fato, um acontecimento coletivo.

Assistir à MTV não significava simplesmente assistir a videoclipe e conhecer músicas por acaso, era uma espécie de ritual e, principalmente, havia uma sensação de que todos estavam olhando para os mesmos lugares.

Hoje, isso mudou radicalmente. Antes, a cultura pop chegava até você; agora, você precisa escolher entre milhões de coisas que podem chegar até você.

E nessa cena, nesse momento, eu me perguntei: será que a geração mais nova que assistir a este filme vai saber o que é MTV? Vai entender essa referência?  E talvez seja justamente aí que a referência fique mais interessante: o filme não está apenas “mostrando” os anos 1980, está nos dizendo como estamos cada vez mais distantes de uma época em que a cultura tinha referências compartilhadas.

Quem sabe seja essa a verdadeira intenção do filme: fazer a gente se lembrar de como era viver em um mundo em que ainda parecíamos estar todos na mesma rua.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

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