quarta-feira, 13 maio, 2026
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Monstros S.A.: O Talibã como o bicho-papão do Império

(Da Carta Capital)

O 20º aniversário da chamada “guerra ao terror”, que teve início com a invasão do Afeganistão em 2001, é marcado pela retirada das tropas dos Estados Unidos e a “volta” do Talibã a Cabul. De certa forma retornamos a 2001, mas em outras não – não existe como retornar já que a guerra dos EUA contra o terror matou 800 mil pessoas e deslocou outras 37 milhões.

Os eventos dos últimos dias levantaram questionamentos urgentes. Como devemos interpretar o que aconteceu no Afeganistão? Como expressar solidariedade aos afegãos, e que forma de apoio deveria ser abandonada? (Talvez, um bom começo seria com o medo/lágrimas de feministas liberais brancas pelas mulheres e meninas afegãs que ainda justifica a violência imperial dos EUA).

Campanha na mídia social afegã #SanctionPakistan (Puna o Paquistão) eclipsa o papel do império estadunidense e involuntariamente defende a inocência branca? A campanha #SanctionPakistan com razão ataca décadas de políticas paquistanesas oferecendo apoio material ao Talibã, racializando cruelmente os refugiados afegãos e deixando suas populações Pashtun e Baloch suportando o peso da violência do Talibã patrocinada pelo Estado, mas isso isenta o império dos EUA?

É claro que a cobertura do Afeganistão, quando chega às nossas telas, é conturbada por narrativas que a tornam familiar às pessoas – em outras palavras, ela foi lida para nós. A violência parece orgânica na paisagem e no caráter de seu povo e é apresentada apenas como mais uma etapa, um dos muitos capítulos violentos.

Mas a confusão pública sobre o que está acontecendo também aponta para um desejo crescente pela análise dos eventos e não apenas um relato dos eventos, o que exige perguntas difíceis e o questionamento dos pressupostos que sustentam os paradigmas vigentes no Afeganistão.

Oferecemos forma diferente de entender o Afeganistão, sabendo muito bem o quão fugaz é esse desejo de saber. Enquanto escrevemos com afegãos, o que escrevemos agora não é para afegãos. Não só não é o que eles precisam agora, como não é nada que os afegãos que não fazem parte da elite já não saibam, enquanto a elite está preocupada demais com seus investimentos e lucros de guerra agora ameaçados para prestar atenção.

Como acadêmicos comprometidos com uma análise anti-imperialista intransigente, e que estudam a “guerra ao terror”, estamos ao lado de outros ao enfrentar a difícil tarefa de oferecer teorias críticas sobre o Afeganistão que não criem outra camada de traição à população afegã. O domínio da geopolítica e abordagens de desenvolvimento unidos à esmagadora visão branca dos Estudos sobre o Afeganistão, no entanto, contribui para o que consideramos e vivenciamos como uma crise profunda de longa data de produção de conhecimento sobre o país.

O que poderíamos dizer neste momento de “emergência” que pudesse recalibrar sensibilidades e entendimentos para aqueles que estão abertos a isso? Onde estiveram nos momentos de “emergência” das últimas duas décadas? Nas últimas quatro décadas? Devemos acreditar que os últimos 20 anos de guerra e ocupação estrangeira só foram benéficos para o povo afegão? Essa soberania só agora foi perdida?

O Talibã explora a facilidade com que conquistou o Afeganistão nos últimos dias como uma prova de popularidade. A Europa e os EUA acreditam que os afegãos foram maus combatentes, que carecem de lealdade e que se renderam, abandonando suas armas e veículos de boa vontade para o Talibã. Quem vai dizer que os afegãos estão simplesmente cansados de morrer por uma guerra que não é e nunca foi deles?

Assistimos na agitação uma curiosa mudança na defesa anterior da indefensável invasão e da “guerra ao terror” que ela iniciou. Uma visão romantizada da ocupação estrangeira oferece indicadores enganosos de meninas na escola, mulheres trabalhando (como se isso por si só indicasse algo), ou a alegria de ouvir música, usar roupa de moda ou andar de skate.

Foi apagada nesta romantização a violência a que foram submetidos os afegãos na forma de “humanitarismo”. Na verdade, o ato inaugural de violência da guerra liderada pelos EUA – a invasão em outubro de 2001 – foi retratado como um ato de compaixão.

A insistência neste fundamento lógico secundário para a guerra ressurge em análises e nos defensores do progresso, para quem a retirada dos EUA foi uma “traição” e uma “decepção”. A acusação revela um paternalismo imperialista internalizado: governar os nativos que não podem governar a si próprios

Para ilustrar esse emaranhado de humanitarismo, progresso e violência, recorremos ao trabalho de campo de um dos coautores deste artigo. A pesquisa, de 2006 a 2012, envolveu o acompanhamento de viúvas a locais de distribuição mensal de alimentos em Cabul.

As mulheres que dependiam de ração alimentar foram forçadas a competir umas com as outras pela escassa “assistência” humanitária. O número de viúvas assistidas vinha sendo reduzido e, no fim, acabou já que imposições neoliberais para a ocupação estipulavam que a ajuda deveria ser transformada em trabalho, eventualmente forçando as viúvas a realizarem serviços braçais para conseguirem alimentação básica.

Num exercício absurdo e kafkiano, as viúvas tinham de provar que mereciam ajuda respondendo todos os meses às mesmas perguntas. Repetidamente, elas eram obrigadas fazer um breve relato de suas vidas, confirmando que haviam ficado viúvas – uma checagem mensal de sua viuvez.

À medida que os programas de ajuda cortavam o número de beneficiados, as viúvas perceberam que nem todos os casos de viuvez eram considerados iguais:

“Descobrimos que se você dissesse que o Talibã matou seu marido, você tinha apoio. Não somos úteis e eles não se importam se lhes dissermos que os soviéticos mataram nossos maridos, ou se eles morreram nas guerras de Cabul na década de 1990, ou se morreram jovens de doenças curáveis, ou de estresse ou pelo uso de heroína. Eles só se importam se foi o Talibã que nos deixou viúvas”, contaram as mulheres.

Duas delas criaram narrativas fictícias, mas convincentes, sobre como o Talibã teria matado seus maridos. Elas pediram ajuda para fazer com que as contas batessem – o ano em que alegaram que seus maridos morreram coincidia com a idade de seus filhos, etc.

Houve pelo menos 17 anos de violência e guerra antes do Talibã, mas a dimensão da violência que as mulheres afegãs haviam experimentado não era importante para os imperialistas humanitários enquanto as “salvavam”. Histórias pessoais e sociais de violência foram apagadas e apenas a violência do Talibã foi reconhecida. Mulheres viúvas nas quatro décadas de guerra tiveram que alterar suas histórias pessoais apenas para serem elegíveis aos cuidados de uma potência invasora.

Oferecemos este exemplo não para exonerar o Talibã, nem para sugerir que o grupo não é promotor de violência, ou mais precisamente que se trata apenas de uma ficção calculada mostrar mulheres tornadas viúvas pelo Talibã. O Talibã mata, faz viúvas e fará mais. A violência do Talibã, no entanto, não pode ser vista como uma patologia.

Sua violência é o produto “natural” de maquinações globais excepcionalmente anormais e de traição por parte de um grupo voluntário de atores – listando apenas os mais significativos: os EUA, Paquistão, Arábia Saudita, China, Israel, a ex-União Soviética, o Reino Unido, Europa e líderes e comandantes fantoches afegãos, todos que participaram na criação das condições para uma violência incalculável sempre desencadeada sobre os afegãos.

Ao retirar o global das origens do terrorismo, tornou-se possível provincianizá-lo, colocando os culpados pelo terror em distintos locais/zonas bombardeados, como foi o caso do Afeganistão. O Talibã é um resquício dessas maquinações globais e, no entanto, as excede. É monstruoso, pois materializa a astúcia cumulativa de um mundo desequilibrado. Os afegãos certamente não devem ser responsabilizados pelo Talibã.

O que está em jogo para nós é mostrar como certa violência é totalmente obscurecida, até mesmo apagada, quando o Talibã está presente. As viúvas são obrigadas a reescrever histórias de violência para sobreviver. Comunidades aterrorizadas e tornadas coletivamente suspeitas por uma ocupação que tratou cada homem afegão como um potencial militante, cada mulher afegã como precisando ser salva na banalidade do mal que é a moderna guerra de Estado.

Mortes promovidas pelo Talibã foram sedimentadas em nossos sentidos como sendo mais mortíferas do que as mortes de afegãos por drones americanos, ataques aéreos, por milícias afegãs (esquadrões da morte) treinadas e financiadas pela CIA, por comandantes criminosos, suas milícias e o Estado afegão que os abraçou, e certamente mais mortal do que afegãos morrendo ao cruzar várias fronteiras enquanto enfrentam o outro lado da mesma arquitetura racializada, securitizada e militarizada da qual estavam fugindo.

A “masculinidade tóxica” dos combatentes do Talibã é de alguma forma mais tóxica do que a violência branca desenfreada, a ocupação branca, a tortura branca, os drones brancos. A violência deles é de outro mundo e, ao contrário do Ocidente, é selvagem, intencional e implacável. É uma que estabelece os limites entre o bárbaro e o moderno, “nós” e “eles”.

Por que passamos a ver a lógica da violência imperial sobre a população afegã como mais lógica, em vez de tão (ou mais) ilógica, tão (ou mais) ilegítima, tão (ou mais) repulsiva do que a do Talibã?

As teorias prevalecentes sobre o Talibã são não apenas racialização ao apresentar o grupo como uma patologia violenta, mas também como pertencente a uma insurgência rural, sempre colocando o Talibã em um conservador e rural Pashtun do Sul – uma figura retrógrada e rebelde que impede o progresso da nação.

É também um estranho reverso do romantismo do nacionalismo etnocultural que atribui autenticidade àqueles com raízes na terra; aqui a nação nasce no centro urbano, onde a modernidade, não a terra, deu vida a ela.

Como alguém vê a guerra global de cima das pilhas de corpos do terror? Nós podemos? O império dos EUA certamente quer que o façamos. Relatórios recentes de crimes de guerra pelos exércitos australiano e britânico mostraram que o Afeganistão havia se tornado um campo de matança, como os homens brancos desejavam, mas apontam para o poder contínuo da inocência branca, redenção branca e seu alcance global. A violência ocidental, para pegar emprestado do antropólogo cultural Talal Asad, é apresentada como não intencional e racional, apesar de sua trilha assassina, e sua intenção abrangente é sempre justa. Criminosos de guerra continuam sendo heróis.

Vamos ouvir nas próximas semanas uma classe de afegãos cujas carreiras foram forjadas na indústria de guerra da “assistência”, que deu origem a um negócio de ajuda vampírico, ambos comprometidos em manter a dependência afegã, mesmo quando falam de empoderamento das mulheres, educação e progresso. Outro efeito disciplinador sobre o discurso afegão em um esforço para ser ouvido. Outra violência simbólica que silencia, mesmo enquanto dá aos afegãos uma plataforma.

O Ocidente ama seus monstros tanto quanto ama sua liberdade. A guerra contra o terrorismo é frequentemente narrada como um conto de fadas, de mulheres muçulmanas como donzelas em perigo e cavaleiros brancos lutando bravamente contra brutos para salvá-las. Monstros repelem tanto quanto fascinam, mas, no fim das contas, eles mascaram a violência que os gerou.

Sahar Ghumkhor é acadêmica baseada na Austrália. Sua pesquisa se concentra na violência política, psicanálise, direito e políticas da diferença

Anila Daulatzai é antropologista sociocultural

*Publicado originalmente em ‘Al Jazeera‘ | Tradução de Carlos Alberto Pavam

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