Por Dani Brito, especial para o Mural do Paraná – Existem filmes que envelhecem. Outros permanecem. O primeiro O Diabo Veste Prada pertence claramente à segunda categoria. Daqueles que a gente para pra assistir qualquer cena quando topa com ele e que até sabe alguns diálogos. E isso não acontece apenas pela história ou pelas atuações. Acontece porque ele criou imagens que resistiram ao tempo.
Para mim, Andy Sachs atravessando as ruas de Nova York toda estabanada segurando um copo de café é tão icônico quanto Audrey Hepburn comendo um bagel em Bonequinha de Luxo diante da vitrine da Tiffany. São cenas que condensam um imaginário inteiro. Moda, desejo, juventude, ambição, cidade. Daqui a cinquenta anos, elas ainda serão reconhecidas.
Não é o que acontece em O Diabo Veste Prada 2. O novo filme parece existir dentro de uma espécie de piloto automático emocional e visual. O roteiro repete quase exatamente as marcações do primeiro: alguém que “não pertence ao mundo da moda” entra na redação, causa estranhamento, revela um olhar diferente, se deslumbra, conquista espaço, vai para uma capital da moda resolver um problema e, no final, participa discretamente de uma conspiração afetiva em favor da vilã. Sem nunca receber reconhecimento real por isso.
Tudo soa familiar demais. E não de um jeito confortável. Apenas previsível. Miranda Priestly também perdeu parte da força. No primeiro filme, sua crueldade vinha acompanhada de inteligência, ritmo e um certo fascínio quase palpável pelo poder. Agora, ela parece apenas cansada e um pouco irritante. Talvez porque personagens daquele nível de toxicidade tenham envelhecido mal num mundo que passou a discutir assédio moral no trabalho. O que antes parecia “gênio difícil” hoje frequentemente parece só abuso corporativo com figurino caro.
E aí entra um problema maior: justamente o figurino, que deveria salvar o filme, raramente surpreende. Tudo é impecavelmente produzido, claro. Mas quase nada provoca. O cinema de moda precisa antecipar temas, criar desejo, apontar caminhos. E o filme desperdiça a chance de discutir justamente o que movimenta a indústria hoje: sustentabilidade, upcycling, rastreabilidade, excesso de consumo, inteligência artificial, brechós, status. Em vez disso, escolhe permanecer numa estética segura, limpa e previsível – como uma vitrine cara demais que ninguém realmente olha.

A trilha sonora também entrega muito sobre essa falta de impacto. Ninguém sai do cinema cantarolando uma única música! O primeiro filme tinha “Suddenly I See”, da KT Tunstall, que praticamente virou extensão da energia jovem da Andy de 20 anos atrás. A música ajudava a construir a sensação de movimento, descoberta e desejo que o filme carregava. No segundo, nem mesmo nomes gigantes como Lady Gaga conseguem criar esse efeito. As músicas entram e saem sem deixar rastro, com exceção das que são… da primeira versão!
Talvez o maior desperdício seja Andy. Depois de tantos anos, ela merecia uma vida mais interessante. Mais caótica também. Afinal, estamos falando de uma jornalista vivendo em Nova York. Onde estão os excessos? Os bares improváveis? Os romances ruins? As noites longas? As conversas memoráveis? Andy parece adulta demais para a cidade onde vive. Quase domesticada. Em vários momentos, tive a sensação de que o filme poderia se chamar A Vida Chata de Andy.
E isso talvez explique por que O Diabo Veste Prada 2 dificilmente deixará imagens permanentes na cultura pop. O primeiro filme entendia algo essencial sobre moda: roupas nunca foram apenas roupas. Elas falam de desejo, poder, inadequação, pertencimento e fantasia. Quem já viu Cinderela em Paris ou Prét-à-Porter sabe do que estou falando.
O segundo Diabo parece acreditar que basta repetir os códigos estéticos do original para recriar sua força. Mas memória cultural não funciona assim.
