Por Marcos Juliano Ofenbock – No dia 13 de outubro de 2026, atravessei a entrada de Eton College levando comigo uma história que comecei a investigar em Curitiba, 22 anos antes. Estava ali para apresentá-la à History Society, a Sociedade de História do colégio. Segundo a confirmação do professor Andrew Robinson, eu seria o primeiro brasileiro a palestrar para aquela sociedade. Sentia orgulho de representar o Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, mas também a responsabilidade de contar, em inglês, uma pesquisa construída com tantos documentos, perguntas e pessoas que ajudaram a procurar respostas.
O convite havia partido de Lucas Cornelsen, aluno da Villiers House. Havia algo especialmente bonito nessa aproximação: o bisavô de Lucas nasceu em Curitiba, a cidade onde viveu o homem que eu procurava compreender. A casa do estudante tinha ainda como emblema uma bandeira pirata, com caveira e ossos cruzados. Eram coincidências que tornavam o encontro mais curioso, embora o que me levasse àquela escola fosse o trabalho de investigação histórica.
Fundado em 1440 pelo rei Henrique VI, Eton ocupa um lugar singular na formação de gerações britânicas. Porém, naquela tarde, sua importância para mim tinha uma dimensão muito particular. O velho conhecido como Zulmiro afirmara ter estudado ali antes de se tornar pirata e desaparecer nas matas do Brasil. Mais de dois séculos depois dos acontecimentos atribuídos à sua juventude, eu chegava ao colégio para compartilhar o que havia encontrado a respeito dele.
O professor Andrew Robinson, Master da History Society, nos aguardava na entrada. Desde o primeiro cumprimento, sua maneira de nos receber transformou a expectativa da visita em uma sensação de acolhimento. Estavam comigo minha noiva, Adriana Comin, meu sócio e também membro do Instituto, Bruno Damiani, e o cônsul honorário do Reino Unido no Paraná, Adam Patterson. Todos participaram daquele percurso, e poder dividir a experiência com eles tornou o dia ainda mais significativo.

Robinson nos conduziu à biblioteca Henry Marten. Cercados por livros históricos, ouvimos suas explicações e começamos a conhecer a relação de Eton com a preservação e o estudo do passado. Para quem passou tantos anos recorrendo a livros e documentos em busca de pistas, estar naquele ambiente despertava uma vontade difícil de controlar: olhar com atenção para tudo, ouvir cada informação e tentar guardar os detalhes que o tempo da visita permitia.
Francis Hodder
Depois, fomos conhecer os arquivos. Foi ali que aconteceu um dos momentos mais importantes de toda a viagem. O professor nos possibilitou o acesso ao livro de registros de alunos de 1811, no qual estava a assinatura de Francis Hodder. Até então, aquele nome me acompanhava por meio das referências que eu havia localizado na pesquisa. Agora, podia observar sua assinatura no registro conservado pela própria escola.
Francis Hodder, ligado à região de Cork, na Irlanda, surgiu na investigação como uma possível identidade de João Francisco Inglez, o homem que viveu em Curitiba e que relaciono à história de Zulmiro. O relato do velho mencionava nascimento em Cork, em 1798, e estudos em Eton. Essas informações orientaram uma busca que encontrou correspondências em registros independentes. A busca havia partido de um relato publicado no século XIX e chegava agora a um documento preservado no lugar mencionado por seu protagonista.
Em Curitiba, a pesquisadora Séfora havia localizado a assinatura de João Francisco em um documento de batismo e renúncia à religião anglicana, de 31 de janeiro de 1829, anterior ao seu casamento na Igreja Matriz. Diante do registro de Eton, tornou-se possível comparar as duas assinaturas, separadas por dezoito anos e por um oceano. Chamou minha atenção, especialmente, a semelhança na sequência de letras de Francis e Francisco.

A semelhança se soma às outras correspondências que motivaram a investigação. Para mim, aquele documento tinha um valor inestimável: permitia fazer uma nova pergunta a partir de um registro original, e não apenas repetir o que os relatos antigos diziam.
Pensei no caminho percorrido até aquela página. Primeiro, os registros encontrados no Brasil; depois, a referência ao aluno de Eton; mais tarde, a assinatura de 1829. Agora, diante de nós, estava a assinatura de 1811. Cada descoberta havia tornado possível procurar a seguinte. O professor Robinson nos ajudava a acrescentar uma peça importante a essa sequência, e eu sabia que levaria aquele momento comigo por muito tempo.
Palestra
Quando seguimos para a biblioteca, havia mais de quarenta alunos e professores à espera da apresentação. Ao olhar para eles, senti a dimensão daquele convite. Eu havia me preparado durante meses para contar a história em inglês. Agora, precisava apresentar com clareza o que os documentos permitiam afirmar e explicar as hipóteses que ainda buscava investigar. Estava na escola onde o velho dissera ter estudado, diante de jovens que queriam saber quem ele havia sido.
A palestra retomava uma passagem especialmente simbólica da história de Eton. Em 1927, J. M. Barrie, criador de Peter Pan, apresentou ali o discurso Captain Hook at Eton, sobre a biografia fictícia do Capitão Gancho. O nosso encontro fazia referência àquela apresentação, ocorrida 99 anos antes. Eu voltava ao tema por outro caminho: a possibilidade de que uma história real, divulgada antes da estreia teatral de Peter Pan, tivesse contribuído para a criação do personagem.

Mostrei que, em 1896, a história de um pirata que dizia ter estudado em Eton, vivia escondido nas matas brasileiras e afirmava que Zulmiro não era seu nome verdadeiro chegou à imprensa de Londres. O Financial News publicou o conteúdo da primeira carta de Edward Young em 15 de maio daquele ano. Na divulgação de 1896, a ligação com Curitiba ainda não estava estabelecida; ela seria reconstruída muito depois, pela pesquisa.
Oito anos mais tarde, em 1904, o Capitão Gancho apareceria nos palcos ligado a Eton. No romance Peter and Wendy, de 1911, Barrie escreveu que Gancho não era o verdadeiro nome do personagem e associou seu golpe favorito de esgrima ao Rio de Janeiro. No discurso de 1927, surgiram novas referências brasileiras, incluindo Manaus e o envio de seu testamento do Rio para a Inglaterra. Apresentei esses paralelos como uma hipótese de investigação, sem afirmar que já encontramos prova de que Barrie tenha lido as notícias sobre Zulmiro.
Ao encerrar, recebi uma longa salva de palmas. Foi uma emoção perceber que a história havia alcançado aquela plateia. Depois começaram as perguntas, e a conversa ganhou um ritmo que, se o horário permitisse, parecia capaz de continuar pela madrugada. Os estudantes queriam compreender melhor os documentos, as conexões e os caminhos da pesquisa. Quando a sessão terminou, vários se aproximaram para continuar perguntando e comentar o que tinham ouvido.
Guardo essa parte da noite com especial carinho. Durante anos, procurei pessoas e documentos que ajudassem a compreender uma história conhecida por muitos apenas como lenda. Ali, encontrava jovens interessados em examiná-la comigo. O reconhecimento estava nos aplausos, mas também naquele desejo de saber mais, de formular outra pergunta e de permanecer conversando quando a apresentação já havia acabado.
22 anos de pesquisa
Saí de Eton orgulhoso de representar o Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e de ter compartilhado aquele dia com minha equipe. Ao longo de 22 anos, a investigação havia me levado a muitos lugares, mas nenhum encontro tinha reunido de maneira tão próxima a pesquisa sobre o Pirata Zulmiro, a hipótese sobre Gancho e a escola mencionada nas duas histórias.
Não voltei com todas as respostas. Voltei com um documento importante, novas perguntas e a gratidão por uma recepção que jamais esquecerei. Levar a história do Pirata Zulmiro de volta ao colégio onde ele afirmara ter estudado foi um marco na minha trajetória. Naquela noite, uma pesquisa iniciada em Curitiba encontrou em Eton pessoas dispostas a ouvi-la e a pensar sobre ela. Para quem começou essa busca tantos anos antes, isso já tinha um valor imenso.
