Redação e assessoria – Uma investigação histórica iniciada há mais de duas décadas em Curitiba ganhou uma nova dimensão internacional. Após 22 anos de pesquisa em documentos, jornais, mapas, registros familiares e arquivos brasileiros e britânicos, o escritor e pesquisador histórico Marcos Juliano Ofenbock reconstruiu documentalmente a trajetória de Francis Hodder, identificado pela pesquisa como o homem que viveu em Curitiba sob o nome de João Francisco Inglez e que relatos históricos associam ao capitão pirata conhecido como Zulmiro.
A reconstrução dessa trajetória abriu uma nova e inesperada questão histórica: A história do Pirata Zulmiro poderia ter contribuído para o universo cultural que deu origem ao Capitão Gancho, de J.M. Barrie?
De Eton ao Brasil
Segundo Ofenbock, Francis Hodder esteve ligado a Eton College antes de aparecer no Brasil no século XIX. Em 1829, ele surge em Curitiba registrado como João Francisco Inglez. Documentos religiosos, censitários, municipais e funerários permitiram acompanhar sua vida no Paraná, onde constituiu família, viveu durante décadas na região do Pilarzinho e morreu em 1889.
Relatos históricos posteriores associaram esse personagem ao Pirata Zulmiro e ao célebre tesouro escondido na Ilha da Trindade, no Atlântico Sul. Mas a investigação ganhou uma nova direção quando a história de Zulmiro passou a ser comparada com elementos presentes na construção literária do Capitão Gancho.
Conexões com o Capitão Gancho

Em 1896, a história do chamado “pirata de Eton” já havia chegado à imprensa britânica.
Oito anos depois, em 1904, J.M. Barrie levou Peter Pan aos palcos, no final da peça antes da sua morte, o Capitão Gancho grita “Floreat Etona” o lema oficial do Eton College que significa “Que Eton Floresça”.
Em Peter and Wendy, publicado em 1911, Barrie escreveu que a estocada de espada favorita do Capitão Gancho havia sido ensinada por um pirata “at Rio”, uma referência ao Rio de Janeiro.
Mais tarde, em 1927, durante o célebre discurso Captain Hook at Eton, Barrie voltou a associar Hook ao Brasil ao mencionar que parte de seu espólio pirata teria vindo de “a dive in Manaos”, uma taverna em Manaus no meio da floresta Amazônica.
Além das referências ao Rio de Janeiro e a Manaus, tanto Francis Hodder quanto o Capitão Gancho possuem uma ligação com Eton College.
Nenhum desses elementos, isoladamente, prova que Barrie tenha conhecido a história de Zulmiro.
A investigação é apresentada como uma hipótese histórica documentada, e não como uma identificação literária definitiva. A proposta é colocar documentos, cronologia, geografia e literatura lado a lado e investigar até onde essas convergências podem levar.
Investigação chega a Londres

A pesquisa será apresentada na Inglaterra no mês que vem. No dia 15 de outubro, das 18h às 20h, o King’s College London receberá o evento público. O encontro reunirá palestra histórica ilustrada, lançamento do livro e sessão de perguntas e respostas.
O evento é realizado no King’s College London com a Anglo-Brazilian Society e também recebeu divulgação institucional da Society for Nautical Research, a mais tradicional organização britânica dedicada à história naval e marítima.
A apresentação em Londres também marcará o lançamento mundial do eBook: The Pirate Treasure of Trinidad Island: The Documented History of the Largest Pirate Treasure in the World. A obra reconstrói a história do Pirata Zulmiro, o tesouro da Ilha da Trindade, as sucessivas expedições realizadas ao longo dos séculos XIX e XX e o conjunto documental que levou à identificação de Francis Hodder.
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