quarta-feira, 20 maio, 2026
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A Seleção Brasileira diante da sua maior crise de identidade

Esporte e Destino por Marilia Mesquita – O futebol brasileiro sempre se sustentou sobre o pilar do lirismo, da identificação cultural e da catarse coletiva. No entanto, o ciclo atual parece ter arrancado do torcedor a última dose de romantismo e conexão com a equipe. Entre escolhas questionáveis nos bastidores, uma lista de convocados que não dialoga com as arquibancadas e o choque cultural de um futebol hiper comercializado, a Seleção Brasileira entra em campo não apenas para disputar uma taça, mas para tentar ocultar uma alarmante fragilidade técnica e emocional que escancara o seu completo divórcio com o próprio país. O resultado imediato desse distanciamento é o mais doloroso dos sentimentos: a inédita apatia do torcedor e uma profunda falta de crença no tão sonhado hexacampeonato, um título que hoje parece mais uma miragem distante do que um objetivo real.

O primeiro grande soco no estômago veio com o espetáculo do entretenimento sem graça e desprovido de qualquer essência futebolística. Essa encenação artificial serviu como um aviso incômodo de que o futebol foi definitivamente engolido por um show decadente, que rapidamente virou piada e enxurrada de memes nas redes sociais, falhando em agradar tanto os críticos quanto o público. Para o brasileiro, que cresceu respirando a mística e o calor dos gramados, assistir a essa engrenagem fria e amplamente rejeitada é o reflexo exato de uma roupagem superficial que ignora a identidade cultural e a paixão real do seu povo.

Esse cenário de estranhamento se aprofunda quando olhamos para as escolhas conceituais do comando técnico. A incapacidade de construir uma identidade que converse com as nossas raízes expôs um elenco desequilibrado e profundamente frágil em sua essência. A insistência cega em nomes que atuam na Europa sacrificou atletas que carregam a alegria legítima do nosso jogo. Falta “casca” a um grupo de atletas que brilha em seus clubes europeus, mas que parece desconectado do peso histórico e do sentimento que a Amarelinha representa para as ruas do Brasil.

Essa desconexão fica ainda mais evidente quando ousamos comparar os atuais protagonistas com os gigantes do passado. Olhar para o campo hoje e tentar enxergar o impacto de nomes como Romário e Bebeto é um exercício de frustração. Aquela dupla de 1994 exalava a pura essência do futebol de rua, uma sintonia fina que unia a genialidade implacável do Baixinho ao oportunismo refinado de Bebeto. Falta à atual geração a fome de bola e a liderança técnica de um Rivaldo, o herói silencioso de 2002 que resolvia jogos com a frieza dos predestinados. Falta a ludicidade mágica de Ronaldinho Gaúcho, que transformava o gramado em um picadeiro de alegrias, e, acima de tudo, a imponência avassaladora de Ronaldo Fenômeno, um homem que entrava em campo carregando o temor dos adversários e a certeza absoluta da vitória para todo um povo.

Perto da aura mística desses craques, os jogadores de hoje parecem produtos de laboratório, criados sob a rígida cartilha tática europeia, mas desprovidos da alma e da rebeldia que moldaram o futebol brasileiro. O torcedor percebe essa diferença abissal, e é por isso que o grito de “hexa” hoje soa engasgado, sem a convicção de tempos atrás.

Sendo assim, o Brasil caminha sob o signo da desconfiança e da crise de pertencimento. Se por um lado o talento individual ainda mantém o país no mapa do futebol, por outro, a falta de uma identidade genuinamente brasileira cobram o seu preço antes mesmo do apito inicial. Para reconquistar o respeito do mundo e o coração do nosso povo, a Seleção precisará de algo que não se aprende nos centros de treinamento europeus: a humildade de resgatar os laços partidos e a coragem de provar que a camisa canarinho ainda pertence ao torcedor brasileiro.

Pautas e contato: esporteedestino@gmail.com

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.

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