
Como conservar a plena lucidez mental aos 90 anos de idade?
Não conheço fórmulas, mas me relaciono bem com pessoas especiais que estão nessa faixa de idade. Como, por exemplo, o arcebispo emérito de Curitiba, dom Pedro Fedalto, nonagenário, impressionante exemplar desses seres privilegiados.
Além de dono de enorme agenda diária a cumprir, dom Pedro continua dando aulas para futuros padres.
Na noite do lançamento do volume 8 de meu livro “Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses”, Pedro exibiu, sem cerimônia, sua ampla e irrestrita higidez mental. Abordou, em amplo diálogo comigo (dele sou amigo desde os anos 1960), temas de sua preferência, como a vida da Igreja Católica no Paraná, sua história e suas lideranças, e analisou episódios marcantes da História do Paraná, muitos dos quais foi testemunha (e por vezes, ator) ao longo de 30 e tantos anos nas funções de arcebispo da Capital.
INTERNACIONALIZAÇÃO
No dia seguinte ao nosso encontro (em 6 de outubro), os meios de comunicação noticiaram a decisão do papa Francisco de apontar cardeal dom Sergio Rocha, 58, arcebispo de Brasília.
Dom Pedro me havia explicado o que considera orientação “definitiva” do pontífice: cada vez mais manifestar a chamada catolicidade da Igreja (católico quer dizer universal).
Assim ele procedeu: como exemplo, disse Pedro, no último Consistório para a indicação de Cardeais, quando privilegiou pequenos e distantes países, como Ilhas na Ásia, inexpressivas repúblicas africanas e, até, o notoriamente anticlerical Uruguai, país pequeno e mais ou menos distante do olhar “acolhedor” da Cúria Romana”.
DOM PERUZZO
Bispo de uma antiga escola, voltada mais a servir do que ganhar os “Spotlights, Pedro Fedalto reconhece a importância que o atual arcebispo de Curitiba, com José Antonio Peruzzo tem no concerto do episcopado nacional. “Ele não para, é muito solicitado, atende a compromissos no Brasil e exterior”. Essa face do arcebispo, disse Pedro, deve-se à qualificação que identifica seu sucessor: é especialista em Sagradas Escrituras – que conhece em fontes como Aramaico, Grego, Hebraico, Latim. E reputado especialista.
Esse deambular do arcebispo Peruzzo, referência em exegese bíblica, acredito, pode até explicar o porquê da observação de dom Pedro: “Ele talvez não fique muito tempo aqui…”, o que pode significar que tanto preparo o leve a outras plagas mais relevantes…
TEM AUTORIDADE
Admirador de dom Peruzzo, dom Fedalto o considera dono de personalidade “muito firme”. Deu-me muitos exemplos dessa firmeza de ações e objetivos do arcebispo.
A uma pergunta minha, citou como exemplo dessa firmeza o caso do pároco de Botiatuvinha, Curitiba, que pediu para ficar na mesma paróquia depois do grande remanejamento de vigários e párocos em 2015.
O arcebispo concordou.
Agora o padre quer mudar, mas o arcebispo se mantém irredutível: não o muda.
LIVRO TOMBO: VAIDADES
No dia seguinte ao nosso encontro, o arcebispo emérito tinha compromisso com jovens vocacionados ao sacerdócio católico.
Para os alunos do Propedêutico da Arquidiocese de Curitiba iria lecionar alguns capítulos de seu tema preferido – a História da Igreja no Paraná.
Já no Studium Theologicum, em que estudam alunos da Arquidiocese de Curitiba, de congregações e ordens religiosas, e de outras dioceses, iria iniciar uma série de aulas “importantíssimas”: ensinar os futuros párocos a importância de escrever com fidelidade o chamado Livro Tombo da Paróquia.
“FAÇO E ACONTEÇO”
– O livro Tombo tem caráter histórico-eclesiástico. Deve conter o essencial, comprometido com a verdade. O padre que o escreve deve pensar nos que o vão folhear no futuro.
E acentua Pedro Fedalto:
– Por isso, nada mais lamentável do que aquilo acontece com muita frequência: alguns padres ficam se auto elogiando – acham-se o centro do mundo, ‘porque faço e aconteço’. É lamentável. Eles fogem do essencial, o compromisso com a História da Igreja.
