
Alguns livros e encontros com sábios estudiosos do tema me levaram a entender melhor a alma de certos tipos humanos de determinadas regiões do Brasil.
Dois deles desses tipos, de forma particular, me chamaram sempre a atenção e me fizeram entendê-los além das aparências: os mineiros e os gaúchos. Eles fazem parte de um limitado universo de brasileiros com marcas identificadoras muito fortes – “marcas registradas” singularmente especiais.
Esse é um assunto recorrente em minhas reflexões, beirando à etnografia, à sociologia, à antropologia. Só beirando.
ENXERGANDO O GAÚCHO
E hoje, curiosamente, me vem pelo futebol brasileiro, em franca decadência em plano mundial, a tentativa de enxergar o gaúcho, de poder defini-lo melhor a partir de suas características. Tudo isso em poucas palavras, o que é quase impossível.
“… (os técnicos) foram temperados por mães e pais provados pela austeridade de italianos pioneiros, gente do campo, uma certa sovinice e um largo, amplo autoritarismo em que o chefe do clã sempre teve a palavra final.”
O gaúcho que examino não é o da Campanha, o dos Pampas, o gaudério. Mas é o de origem italiana, que lá é denominado de “gringo”. Por vez, denominação pejorativa.
Começo por lembrar que nos últimos anos os técnicos de futebol da seleção brasileira têm sido na maioria gaúchos.
Quase sempre aparecendo em situações de emergência, têm sido chamados para salvar os canarinhos que hoje até os peruanos derrotam.
Essa observação da corrida aos técnicos tipos autoritários e às vezes podendo revelar-se até “maternais”, vou circunscrever a 3 deles: Felipão, Dunga e Tite.
Eles são, curiosamente, naturais de áreas do Rio Grande do Sul de predominância étnica italiana, sendo eles mesmos netos e bisnetos de homens e mulheres que a partir de 1875 chegaram ao RS para ajudá-lo a crescer. E como ajudaram!
SOBRENOMES ITALIANOS
Os sobrenomes deles são italianos, origem provavelmente trentina. Isso significa que Dunga, Felipão e Tite têm muito sangue germânico, um pouco austríaco. E que seus pais ainda são capazes de falar dialetos como o “talian”, de notórias raízes em Trento, Norte da Itália.
Se são muito germânicos, não dá para arriscar, então, que se encaixam na relação dos disciplinados/disciplinadores?
Quem não conhece bem aquela tradição italiana mantida ali pela região serrana italiana dos grandes parreirais, como Caxias, Ana Recchia, Bento Gonçalves, não entende com que brasa essa gente foi forjada. Para mim, embora até tenham sido criados mais na cidade, os três técnicos foram temperados por mães e pais provados pela austeridade de italianos pioneiros, gente do campo, uma certa sovinice e um largo, amplo autoritarismo em que o chefe do clã sempre teve a palavra final.
ROSÁRIO AMARELO
Dois deles – Tite e Felipão – foram alimentados por mães ardorosamente praticantes de um catolicismo popular, aquele dos que simplesmente creem porque creem. Não precisam de teologias ou maiores explicações. Creem quase que só em seus santos de devoção particular. E o terço pode substituir as Escrituras, pois seria suficientemente pedagógico.
A mãe de Tite – fico sabendo – chegou a trocar de rosário para suas devoções cotidianas. O novo é de cor amarela, para impulsionar o grande desafio do filho na Seleção.
Mas há outros que se enquadram perfeitamente nessa categoria de técnicos oriundi, como o curitibano Levi Culpi, que um dia, quem sabe, pode ampliar o rol de “italianos” na Seleção Brasileira.
Haveria outras possibilidades de se entender a preferência pelos gaúchos de origem italiana como técnicos da CBF. Uma corrente de analistas diz que eles são tão preferidos porque “vão lidar com os jogadores, vindos de camadas muito pobres da população, totalmente indisciplinados e sem freios…” Os remédios seriam, pois, os gaúchos “oriundi”…
