Por Lucas Jensen – Estava pensando esses dias, novamente, sobre o quanto existem expressões que não têm tradução satisfatória na nossa língua. Como a utilização do “going down the rabbit hole” (descendo a toca do coelho) para se referir a um aprofundamento em um assunto, perdendo a noção do tempo e se envolvendo em pesquisas complexas que podem ou não levar a curiosidades, conspirações e, frequentemente, à procrastinação – no meu caso.
Apesar de termos o “cair de cabeça” ou “mergulhar em um assunto”, que também são ótimas expressões, não temos a toca do coelho. Ela não funciona tão bem no português porque está enraizada na cultura anglófona. Ou seja, o processo que acontece com os falantes da língua inglesa está muito ligado à conexão que eles têm com “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.
Pois bem, cá estava eu “descendo a toca do coelho” numa quinta-feira normal e revisitei um pensamento recorrente: não parece que cada dia tem uma “vibe” diferente? Obviamente cada dia é um dia, mas parece que as quintas são similares entre si, as terças parecidas com as terças e por aí vai.
Se você não é uma pessoa insuportavelmente feliz ou irremediavelmente diferente, a sua semana é mais ou menos assim: segunda melancólica, terça determinada, quarta equilibrada, quinta esperançosa, sexta eufórica, sábado do pau torando, domingo da morte lenta em direção a mais uma semana.
Isso me lembrou da “Depressão de Domingo à noite“, da musiquinha do Fantástico e da subsequente “Síndrome de Segunda-feira“. Em inglês temos o “Monday Blues” que, convenhamos, não tem a mesma sonoridade patológica. Nós brasileiros somos mestres em autodiagnóstico com doutorado em hipocondria.
Esse sentimento desagradável no início da semana nada mais é do que uma ansiedade antecipatória, quando o indivíduo (eu, você e até o Zoboomafoo) começa a repassar mentalmente prazos, tarefas e interações sociais obrigatórias, por exemplo.
Na minha cabeça tinha de haver um culpado disso. A primeira parada foram os babilônios. Eles talvez tenham sido os primeiros a adotar uma semana de sete dias, com base nos sete corpos celestes visíveis que consideravam divindades: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Obviamente, com outros nomes. Mas foram só os romanos que decidiram adotar esse sistema durante o império.
Você já deve ter reparado que, em português, não utilizamos os nomes “pagãos” para os dias úteis. Quem impulsionou essa mudança foi São Martinho de Braga, no século VI, com a desculpa de que era uma blasfêmia dar nomes de “demônios” aos dias. Já o “feira” vem de “feria” (dia livre de trabalho para oração e descanso espiritual). Ou seja, para ele, todos os dias deveriam ser de introspecção e adoração. Ironicamente, o sufixo passou a designar distopicamente os dias de trabalho.
O estado de espírito do começo da semana não é só cultural, mas biológico. E, se é dado que você quer, então toma: uma pesquisa recente da Universidade de Hong Kong revelou que os níveis de cortisol, o principal hormônio do estresse, sofrem uma elevação de cerca de 23% nas manhãs de segunda-feira em comparação com outros dias da semana. Esse pico hormonal é muitas vezes acompanhado por um aumento de 19% na incidência de eventos cardiovasculares agudos como o infarto do miocárdio.

Todo o bololô físico ainda tem uma cerejinha que chamam de “jet-lag social”, que basicamente é você interromper a sua rotina “regrada” da semana comendo coisas diferentes, bebendo, dormindo tarde e todas as outras coisas legais do finde (não pode mais falar “fds” porque a Gen Z não deixa), e daí ficar indisposto.
Passando do corpo para a mente, a saúde mental também é afetada. Quase metade dos trabalhadores em tempo integral no Brasil relatam sintomas de ansiedade e depressão, principalmente relacionados ao ambiente de trabalho. No Japão, a segunda-feira é o dia com mais casos relatados de suicídio.
A sensação de que só somos nós mesmos aos fins de semana cria uma existência picotada que engole cinco sétimos da nossa vida, sacrificados em prol de uma semiliberdade aos sábados, domingos e pedacinho de sexta, nos desumanizando.
Em “A Metamorfose”, de Franz Kafka, Gregor Samsa não se desespera por ter se transformado em um inseto, mas sim por ter perdido o trem das 5h da manhã. O livro não fala abertamente que é uma segunda, mas se houver qualquer dia que seria capaz disso, seria esse. Imagine se Kafka fosse japonês.
Querendo ou não, um velhinho barbudo vermelho que não é Noel, chamado Karl Marx, ainda é a referência básica para o conceito de alienação laboral. Esse sentimento de desconexão com o produto do esforço e com o processo de produção causa o Estranhamento (Entfremdung). A forma como Marx descreve esse Estranhamento explica que o indivíduo só se sente livre quando não está trabalhando. Ou seja, chega segunda ele volta a um estado onde a sua força de trabalho é mercadoria e ele é somente mais uma engrenagem. O aguardo ansioso pelo “sextou” de cada semana é pelo momento em que ele recupera posse de si mesmo.
Outro que observou essa alienação foi Henri Lefebvre. Ele complementa Marx dizendo que a vida moderna é reduzida a uma rotina de atividades repetitivas, fragmentando o tempo entre trabalho, lazer e descanso, impedindo uma experiência completa.
Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”, descreve essa sensação, mas chama de algo próximo a ser um estrangeiro na própria vida, observando a rotina dos colegas como algo absurdo e vazio. Essa espera pelo fim do expediente e por um sentido que nunca chega sintetiza a dor de ter uma vida interior imensa presa a uma existência medíocre.
Pelo trabalho de Lefebvre podemos interpretar que a “Síndrome de Segunda-feira” manifesta toda a “miséria do cotidiano”, tornando o final de semana uma promessa de rompimento com a lógica semanal escravizante. A angústia de domingo é o reconhecimento da derrota. O acender das luzes na balada, o garçom que passa varrendo nossos pés quando o bar está fechando.
O sentimento ruim do começo da semana se intensifica quando percebemos que o nosso tempo livre foi gasto de uma forma que não preenche o vazio existencial deixado pela lógica da rotina. O tempo se torna uma mercadoria e a espera por sábado e domingo se torna um produto que não atende às expectativas. Quase como você comprar por impulso um sofá na Shopee e receber uma almofada.
Em “Bartleby, o Escrivão”, Herman Melville dá um antídoto para a Síndrome. O protagonista representa um indivíduo que se recusou a fazer parte da engrenagem (e da semana produtiva). Sua atitude de protesto contra o repetitivo trabalho de escritório se dava com a famosa frase: “I would prefer not to” (eu preferiria não fazer isso) ou, em português claro, “taquei o foda-se”.
Apesar de historicamente a singularidade da língua portuguesa nos lembrar que a organização do tempo é uma construção política, cultural e teológica, devemos nos lembrar também que essa tentativa de cristianizar o tempo acabou, consequentemente, “feirizando” a vida. Segunda-feira, quarta-feira, não importa a feira. E tem maluco, madame, maurício e atriz corroborando a ideia.
Então, a luta pela reconquista do tempo é a luta pela própria humanidade. O final de semana não deveria ser o único refúgio da liberdade. Ao mesmo tempo, o que temos senão os finais de semana e os momentos “livres” do dia para tomarmos responsabilidade pelas próprias mudanças que desejamos ver à nossa volta?
Assim como o português não abraça certas expressões, outras línguas também não imprimem o mesmo significado a algumas de nossas palavras, como a saudade. E saudade é um tema recorrente na minha vida e na minha escrita. Hoje tenho saudade de dias mais simples como as tardes de futebol na rua, Thundercats no domingo de manhã, mundo antes da revolução industrial-burguesa. Essas coisas.
Bom, mas deixa eu sair da toca do coelho que preciso voltar a trabalhar.

Lucas Jensen é jornalista, publicitário e escritor, formou-se em 2019, mas trabalha com comunicação há mais de 15 anos. O autor do livro “Continue Voltando: histórias de recuperação” tem um altar para Haruki Murakami, é mestre em dar pitacos, fã de livros clássicos, colecionador de listas de leitura, pai de pet e marido de psicóloga.
