Em 2015, as autoridades chinesas desarticularam mais de 60 bancos clandestinos que realizaram transações num valor superior a um trilhão de yuans (580 bilhões de reais), a maior parte da China para o exterior. Uma ampla maioria se concentrava na cidade de Shenzhen, por sua proximidade com Hong Kong, onde o dinheiro circula livremente.
Mas muitos negócios similares continuam operando. A funcionária da loja de chá explica, após muitas reticências, que o dinheiro será transferido para a Espanha a partir de uma conta num conhecido banco de Hong Kong, aonde o dinheiro chega sob a justificativa do comércio de chá. “Exportamos para Hong Kong mercadorias cujo valor, por exemplo, é de 200.000 yuans, mas a fatura indica que valem só metade disso. Nosso comprador, que já sabe disso, nos deposita 100.000 na China continental – o preço oficial –, e o resto ele deposita nessa conta de Hong Kong. Por isso mandamos para onde você quiser”.
A China já intensificou os controles alfandegários e pediu mais cooperação às instituições financeiras, mas, apesar dos esforços, o fenômeno está longe de ser erradicado, pela dificuldade de detectar essas operações fraudulentas. A poucos quilômetros da loja de chá, o encarregado de um quiosque que também vive desse negócio nos oferece outra opção: “Temos um sócio nos Estados Unidos. Ele pode enviar o dinheiro para você na Espanha e, como tem várias empresas na China continental, tem mais liberdade para tirar o dinheiro”. O homem do quiosque admite que ultimamente as autoridades estão mais atentas, mas tenta transmitir confiança: “Estou há 20 anos fazendo isto, e nunca tive nenhum problema”.
O êxodo de capital na China é algo inédito para as autoridades. Desde o começo do século, o gigante asiático recebe mais capital do que envia, graças às suas boas perspectivas econômicas e ao convencimento de que sua moeda se valorizaria. Além disso, as restrições aos movimentos financeiros eram mais rigorosas que as atuais, por isso os poucos que queriam tirar dinheiro tinham mais dificuldades do que hoje. O panorama mudou desde meados de 2014, quando ficou claro que a China não voltaria a crescer a taxas anuais de dois dígitos.
Não há cifras oficiais sobre a quantidade de dinheiro que já saiu do país, mas as estimativas da Bloomberg se aproximam de um trilhão de dólares (3,78 trilhões de reais, pelo câmbio atual) somente em 2015, sete vezes mais que a cifra calculada em 2014.
