
Era fim de tarde. Depois de sair do trabalho, o assistente administrativo Davi esperava a última condução do dia com um amigo em um ponto de ônibus na Avenida Paralela, em Salvador, quando foi abordado por uma guarnição da Polícia Militar. “Eu entreguei meu RG, ele pegou o celular dele e ficou comparando, olhando para o meu rosto e olhando para o RG”, lembra ele.
Em seguida, os policiais o informaram que, ao passar na Estação Lapa do metrô, as câmeras de reconhecimento facial encontraram similaridades do seu rosto com o de um procurado pela justiça que tem seus dados cadastrados no banco de dados da Secretaria de Segurança Pública. Uma vez detectado pelo sistema, Davi foi monitorado por 15 estações, da Lapa à Mussurunga, até ser abordado pelos policiais.
Davi era inocente, mas não para as câmeras que o seguiram pelo percurso de 22 quilômetros. Foi liberado depois de identificado pelos policiais, que constataram que ele não era quem as câmeras e a inteligência artificial apontaram. Mas entrou para a estatística como mais um caso de jovem negro identificado erroneamente pelas tecnologias de reconhecimento facial adotadas pela polícia.
A taxa de acertos é pequena: na Micareta da Feira de Santana de 2019, por exemplo, só 3,6% dos 903 alertas gerados viraram mandados de prisão. Apesar disso, o governo da Bahia segue tratando o reconhecimento facial como vitrine de suas políticas de segurança pública. Em dois anos e meio, 215 procurados foram capturados com o uso da tecnologia.
Em julho deste ano, o governador Rui Costa, do PT, decidiu expandir o sistema e fez uma parceria de R$ 665 milhões com o conglomerado Oi e Avantia, especializada em tecnologias de segurança. Assim, além de Salvador, outras 77 cidades ganharão 4.095 câmeras conectadas no estado.
“Antes, a identificação era feita pelo policial, visualmente. Agora, o próprio sistema identifica criminosos, suspeitos, armas e placas de veículos”, declarou o governador, sem esconder seu entusiasmo pela tecnologia. Mais: o governo baiano também quer que a iniciativa privada integre o sistema de vigilância e reconhecimento facial. Agências bancárias, shoppings e condomínios, por exemplo, poderiam conectar suas câmeras e entregar os movimentos e rostos de quem passa por lá às autoridades. “[Com isso,] podemos multiplicar os olhos da segurança pública da Bahia”, comemorou Costa.
