terça-feira, 24 fevereiro, 2026
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Na toca do Coelho: Waldemar pagou pelo o que comeu

Antonio Carlos da Costa Coelho
Antonio Carlos da Costa Coelho

(espaço de Antonio Carlos da Costa Coelho)

No tempo em que os homens falavam com os animais, lá no Paraíso, com um papinho sibilante, a cobra seduziu Eva. E então, a primeira dama do Paraíso, contaminada pelo poder da sedução da astuta serpente, convenceu, também, a Adão provar da maçã. De lá para cá já não existe mais paraíso. O homem e a mulher terão que pagar por tudo o que comerem – e, mesmo assim, jamais deixaram de dar ouvidos aos sibilos inebriantes das serpentes. Assim foi com um amigo curitibano.

Waldemar é homem feito. Sério. Funcionário concursado do Banco do Brasil.

Com 48 anos, mora com a mãe que sonha em vê-lo casado. – Mas, ele não tem sorte, diz ela, já meio sem esperança. – Uma vez arrumou uma garota, mas ela acabou conhecendo um alemão e hoje mora em Dusseldorf. Depois ele encontrou outras, mas, também, não vingaram. A última, ah… safada… destruiu o seu coração e consumiu as suas economias – conta a mãe. Depois dela nunca mais ele procurou mulher. Às vezes penso que, de tristeza e mágoa, ele irá se acabar no conhaque e nos boleros de Lucho Gatica e Luiz Miguel. É uma tristeza só.

Tristeza que não é pra menos. Waldemar se apaixonou pela mulher da cobra.

No começo era só amizade. O rapaz frequentava o bar do marido dela. Ela aparecia só de vez em quando. Mas, um dia o bar fechou e, por amizade, Waldemar passou a frequentar a casa do amigo. Lá os tragos eram de graça e na companhia do casal. Primeiro na sala de visita e, depois, na mesa da cozinha. Ela, aquela sirigaita – conta a mãe – bonita que só, pernas longas, coxas grossas, pele branca e cabelos negros, seduziu o garoto. Uma dançarina do ventre. Dançava com a espada na cabeça e com as cobras enroladas naquele corpo escultural, recorda a pobre senhora que, depois desses ocorridos, passou a frequentar a Quadrangular.

 

“ERAM DUAS JIBÓIAS; UMA, ALBINA”

A atriz Viviane Pasmanter com uma jiboia, na novela “Em família”, da TV Globo
A atriz Viviane Pasmanter com uma jiboia, na novela “Em família”, da TV Globo

Eram duas jiboias, uma albina e outra da comum. Waldemar cuidava das bichas como se fossem crianças. Antes de pegar no serviço, corria comprar ratinhos para alimentá-las. E, quando saia do Banco – diz a mãe comovida ao lembrar da dedicação do filho – descia correndo a Marechal Floriano buscar as víboras para levar ao restaurante onde diaba dançava. Carregava as serpentes numa cesta igual a da rainha do Egito. Ia de taxi e pagava a corrida. Até isso ele fazia.

Quando ela dançava Fatamorgana e Ensa El Hem as jiboias deslizavam pelo seu corpo e beijavam seu rosto pálido. O público delirava. Waldemar passava entre as mesas oferecendo o CD da sua amada. Depois de três anos, foram-se as economias, conta a mãe. Tudo que guardou na vida se foi. Ele dava de tudo pra sirigaita. Chegou a comprar roupas e até botas de verniz.

Daquelas que vão até as coxas. Só luxo. Era muita paixão. E a sem vergonha, quando a poupança acabou, trocou o Waldemar por um motociclista.

Para machucar, passava, nas tardes de sábado, na frente de casa com o motor roncando alto e a vadia na garupa. Exibida! Vestia roupas justas de couro e as botas vermelhas que o meu menino comprou. Maldita! Agora veja como ele está. Sua vida é só trabalho, bar e bolero. Uma solidão que dói no coração de mãe.

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