sexta-feira, 7 agosto, 2026
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REPERCUTINDO: DERRADEIRO VOO DE SCALCO, TUCANO DE RARA PLUMAGEM

Scalco em depoimento ao jornalista, em 2018

Meio ambiente, saúde pública e direitos humanos
foram a grande preocupação do Constituinte de 1988.

 

Morreu Euclides Girólamo Scalco, na madrugada desta terça-feira, 16, em Curitiba. A objetiva notícia não desvela a dimensão do homem, gaúcho de Nova Prata, 88 anos,um dos melhores exemplos de espírito público revelados no Paraná, fio condutor de uma vida paradigmática para o país. Foi mais uma vítima da Covid, que tantos poderosos burramente tratam de qualificar de “uma gripezinha”.

A morte de Scalco não me obriga a louvar o amigo que parte, muito menos a seguir aquela máxima – “de mortuis nil nisse bene”, dos mortos não se diga senão o bem.

No entanto, sou compelido por dever de justiça a acolher a recomendação dos latinos, porque silenciar, agora, seria uma enorme injustiça diante do momento nacional, diante do caos instalado na pátria que Scalco tanto amou e para a qual transferiu sua pedagogia única de homem público.

Foi homem do bem, cento por cento, vivente e praticante da boa política, essencial matéria de que se devem alimentar democracias maduras, como lembra o papa Francisco. Aliás, quero registrar uma confissão do homem de fé Scalco: um dia, em 2017, ele me confessou rezar diariamente uma ave-maria e um pai- nosso pelo papa Francisco, vítima de tantas oposições.

Scalco, Aroldo e Luiz Carlos Marquesi

Minha preocupação em guardar a memória relevante de Scalco começou em 2008. Foi quando o fiz um dos personagens de meu livro(volume 1) Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses. Estou preparando o volume 12. E explico: não escrevo biografias, traço perfis nessa coleção em que já registrei vida, obra e momentos relevantes de quase 300 personalidades da vida do Paraná.

E mais rememoro: em 1995, ao ser introduzido a Scalco, pela escritora Alzelli Bassetti – amiga de Euclides e dona Terezinha -, fundamos, em meu apartamento, o Instituto Ciência e Fé “Fidelis et Constans”, ao lado de alguns paranaenses de grande perfil, como Belmiro Valverdade Jobim Castor, professor Ubaldo Puppi, PhD e professor Newton Freire-Maia, comunicador Luiz Carlos Martins, professor Hélio de Freitas Puglielli, Celso Ferreira do Nascimento, professora Eleidi Freire Maia…Ao longo dos anos, o Instituto foi ampliando seus quadros e a sua obra, envolvendo outros nomes raros da vida paranaense, como o professor e oncologista Cícero Urban, oncologista Raul Anselmi Junior, Lucio Glomb, Thiago dos Santos, jurisconsulto, Flávio Arns…

Meses depois da fundação do Instituto, Scalco seria conduzido por seu grande amigo, Fernando Henrique Cardoso, para a direção geral brasileira da Binacional Itaipu.

Foi um tempo fertilíssimo, ele fazendo que sempre fez muito bem, cuidando da coisa pública e desenvolvendo programas que ficaram para o bem da região, como a modernização do Hospital Costa Cavalcanti, as aquisição de nova turbina, sem contar uma série de investimentos na melhora da geração de energia e no atendimento das cidades beneficiadas pelos royalties de Itaipu…

Scalco recebendo o diploma grandes porta-vozes, que lhe entreguei em
2018

A dupla cidadania de Euclides Scalco – “cidadão da pátria celeste e da terrestre”, como um dia a ele se referiu o bispo dom Ricardo Hoepers, que com ele conviveu no Instituto Ciência e Fé -, o levava à praticar a máxima que ele sempre me apontava, quando analisávamos esse terreno do sobrenatural, do maravilhoso cristão: “Mostra-me tua fé sem obras que te mostrarei minha fé pelas obras”.

Repetia, assim, o apóstolo Tiago com sua grande definição sobre a inutilidade de práticas religiosas se não forem acompanhadas de ações concretas. Essa é uma marca definitiva da fé católica em que Scalco viveu todos os anos de formação humana, no tradicional Colégio Rosário (Maristas) de Porto Alegre, cidade em que se formou em Farmácia.

Aroldo, Scalco e Rafael Pussoli, num dos lançamentos de Vozes o Paraná 10
Aroldo, Scalco e Rafael Pussoli, num dos lançamentos de Vozes o Paraná
10

Um dos grandes admiradores de Scalco foi sempre o médico e professor Cícero Urban, vice-presidente do Instituto Ciência e Fé, que me telefona para falar dessa passagem do Anjo da Morte por alguém tão próximo de nossas vidas. Cícero, respondendo à minha pergunta, diz que “a maior característica de Scalco foi a integridade”. Ponto.

Nosso último contato foi em dezembro, quando dona Terezinha colocou-me em contato telefônico com Scalco. Ele, com a humildade característica, apresentou-me desnecessárias desculpas, porque alguém de sua casa ainda não tinha me encaminhado o livro “Euclides Scalco, o homem, seu tempo e sua história”. O trabalho, minucioso, um grande esforço de seu sobrinho Marco Antonio Bastiani, encerra capítulos surpreendentes de uma vida devotada à causa pública. Dei minha contribuição ao livro, com meu olhar sobre Scalco, assim como vejo que acolheu depoimentos de dois grandes amigos dele – o médico Gerson Zafalon, e o empresário Pedro de Paula Filho. Esses dois, além de amizade pessoal, enfronhavam-se com Scalco nas ações da Associação de Amigos do Hospítal de Clínicas da UFPR, que Euclides presidiria.

Airton Luiz Baptista (In Memoriam) , Scalco, Aroldo e Carlos Marassi

A descoberta do Sudoeste por Scalco e Terezinha dá-se no final dos 1950, com ele se tornando pioneiro de uma área onde havia tudo por fazer e onde ele foi construindo uma vida pública exemplar. Antes, lembro a freqüência com que abordava o dia da morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. Foi seu teste de fogo, ele acompanhado de universitários amigos,como o ex-senador Pedro Simon, indo às ruas da Capital gaucha, em protesto pela morte do homem que, com sua morte, estava entrando na História.

Político de olhar crítico aguçadíssimo, Scalco nunca se negava a dar opiniões, a registrar sugestões de rotas a seguir. Mas fazia tudo com a finesse de um ser educado, cujo primeiro exercício de liderança, acredito, deu-se nos dias de ginasiano, com ele eleito por unanimidade para presidir a Academia Mariana, que reunia estudantes em torno dos ideais da Congregação Mariana do tradicional Colégio Rosário.

Scalco, Clemerson Clève, Lúcio Glomb, Aroldo

Vindo de uma família de classe média – o pai, sólido hoteleiro- , Scalco foi um intenso absorvedor de exemplos, aluno disciplinado dos melhores mestres de que, por exemplo, o antigo Sudoeste, Beltrão e adjacência, poderia ter. Assim, foi dominando a língua francesa com os padres belgas da Congregação dos Sagrados Corações. Um deles, padre Josef Kalberg, foi decisivo na caminha do depois constituinte de 1988 Scalco na defesa de temas basilares, como Direitos Humanos e meio ambiente.

Scalco, Aroldo e Fábio Campana

Com os sacerdotes belgas partiu “de olhos fechados”, conforme me confessou, em torno de um projeto que se tornaria basilar para a vida da região: as Escolas do Campo. A proposta materializava-se em ensino de modernas técnicas agrícolas, espírito de liderança, estratégia de disseminação dessas propostas renovadoras para o campo.

A Bélgica foi um dos centros em que Scalco, em Louvain, sob a inspiração das proposta da Escola do Campo, foi se aperfeiçoando. Voltou ao Brasil, continuou investindo no futuro de um campo melhor sob mãos e mentes comprometidas com a democracia.

Scalco com Jaime Lerner, que cumpria 80 anos

– Numa hora, não deu mais, partidos de ideologias extremistas tomaram conta das Escolas do Campo. Fiz o que era meu dever, peguei o chapéu”, explicou-me Scalco sobre um dos momentos mais paradigmáticos e menos conhecidos da vida desse ser humano raro que, ano passado, outro grande amigo dele – Mário Petreli, in memoriam – levou em avião especial para jantar com Fernando Henrique. Foi uma noite de reencontros, de avaliação sobre quanto os ideais do fundador do MDB e do PSDB caíram em boa terra.

Scalco

Enfim, Scalco encantou-se, seus frutos estão aí, exemplares para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir…

NA TRAVESSIA

Por Gerson Zafalon .

Lembrando o que disse Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas, “o real não está na saída nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”

A travessia de vida do saudoso amigo Scalco é cheia de acontecimentos importantes para o Brasil e falar sobre ele é muito bom, pois as lembranças são muitas e todas elas significativas. Uma delas que rememoro com emoção foi quando ele, deputado federal constituinte, me convidou para assistir a histórica sessão solene do Congresso Nacional em que foi promulgada a atual Constituição da República Federativa do Brasil, no dia 5 de outubro de 1988.

Atendi o honroso convite e fui para Brasília, onde tive a oportunidade de ver o deputado Ulysses Guimarães, presidente da Constituinte e amigo do Scalco, levantar a Constituição Cidadã e apresentá-la ao povo brasileiro.

Outra grata lembrança, foi o convite que me fez para ser o tesoureiro da Associação dos Amigos do HC, da qual ele era o presidente. Na Associação ele encontrou outra motivação de vida e, literalmente, foi um mestre-de-obras, que todas as construtoras e engenheiros gostariam de ter. Verificava a qualidade dos materiais, visitava e fiscalizava as obras das inúmeras as melhorias no HC. Preocupado com a violência que as crianças sofrem, descobriu o imóvel que a Associação adquiriu e onde hoje funciona o programa DEDICA (Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente). Como cristão que era, o Scalco pode dizer tranquilamente no final de sua vida: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. Seu legado para a sociedade é eterno, e seus amigos sempre lembrarão dele com muitas saudades.

Gerson Zafalon, tomando posse, em 2007, como presidente do CRM, entre Scalco e o filósofo e amigo Rubens Alves.
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