segunda-feira, 23 fevereiro, 2026
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Em “Vozes do Paraná 7”: Ângelo Lopes, vitorioso sem glórias

Bento Munhoz da Rocha, Luiz Eduardo Veiga Lopes e Saul Raiz
Bento Munhoz da Rocha, Luiz Eduardo Veiga Lopes e Saul Raiz

Luiz Eduardo Veiga Lopes, 70, costuma dizer que “a história trata mal o homem público derrotado numa eleição, quase sempre relegando-o ao esquecimento”. A expressão surge quando ele, particularmente, se refere ao pai, Ângelo Ferrário Lopes, ex-prefeito de Curitiba (por nove meses, em 1947) e que depois de ocupar posições de importância na administração pública do Estado, foi derrotado por Bento Munhoz da Rocha na disputa para governador, nos anos 1950.

Lopes concorreu pelo todo poderoso PSD local, que estava, no entanto, profundamente dividido por brigas intestinas entre Raul Vianna, Acciolly Filho, Raul Vaz, João Ribeiro Junior, Guataçara Borba Carneiro, e outros, numa das páginas mais tumultuadas da vida política do Paraná.

A mesma condição de “esquecido pela história” Luiz Eduardo atribui, a propósito, a Saul Ribas, derrotado por José Richa, em 1982, depois de ter sido provado como raro administrador na Prefeitura de Curitiba e na administração estadual em tempos de Ney Braga. Saul, lembra Luiz Eduardo, fez uma história na administração pública de “difícil repetição, dada a importância que teve para o Paraná”.

2 – POUCAS FONTES DE PESQUISA

Os avaliadores da História do Paraná, nativos ou aqueles que adotaram o Estado, não encontram facilidade em pesquisar a vida e obra de Ângelo Lopes. Na verdade, poucos foram os prefeitos de Curitiba que deixaram suas passagens no cargo bem documentadas, exceções, claro, os prefeitos de Ney Braga em diante.

O fato de não serem abundantes as fontes sobre Ângelo Lopes, não significa que esse ator – com papel de primeira na administração pública paranaense – não tenha deixado marcas especiais no Governo. A começar, o que é importante lembrar, que Ângelo foi formando sua história pessoal passo a passo, logo depois de graduado em Engenharia pela Universidade do Paraná (hoje UFPR), no ano de 1925. Não se projetou por apadrinhamentos, mas por pura meritocracia.

3 – A ESTRADA DO CERNE

Voltando à nova posição no Governo, com Ribas: Ângelo estaria, dali em diante, por inteiro, no seu mar, aceitando o grande desafio de sua carreira, a construção da Estrada do Cerne, a rodovia que promoveria, a ligação do Norte do Paraná com a Capital.

Boa parte dos dias de Ângelo Lopes (que morreu com apenas 62 anos), foi consumida na construção da Estrada do Cerne. Afinal, o projeto de Manoel Ribas, cuidadosamente burilado e levado adiante por Lopes, exigia uma imersão total na proposta. Havia um mundo de dificuldades a vencer naqueles dias, quando a construção de uma estrada de 500 quilômetros (mais seus aspectos emblemáticos) tinha de ser vencida com descomunais esforços:

Quase tudo era feito na base da força bruta do homem, com pás, enxadas, facões, picaretas. O auxílio maior eram as carrocinhas puxadas por burros. Máquinas praticamente inexistiam – observa o engenheiro Luiz Eduardo Veiga Lopes, denotando emoção ao acentuar a situação de dificuldades vencida pelo pai.

Há outro fato muito relevante na história do administrador pública Ângelo Lopes, que o filho recolhe da história: Moisés Lupion, em sua primeira administração no Governo, descobriu as incontestáveis qualidades de gestor financeiro de Lopes, levando-o a ocupar uma Secretaria de Fazenda, então à beira do colapso.

Meu pai saiu-se tão bem, a ponto de as finanças públicas serem por ele colocadas em dia em poucos meses. E o Paraná, antes, estava às vésperas da bancarrota. O feito bem-sucedido foi o passaporte para ele ser lançado por Lupion, em meio a desavenças no PSD estadual, como ‘tertius’, candidato de conciliação ao Governo.

Na dura peleja que foi a campanha eleitoral em que saiu derrotado, Ângelo e o PSD esperaram, em vão, o mais ardentemente aguardado apoio, o de Getúlio Vargas, no histórico comício em que Vargas discursaria da sacada do antigo Braz Hotel, na Boca.

Mesmo assim, o grupo que apoiava Bento, recorda Luiz Eduardo, “tentou tirar proveito da fala, como se Getúlio apoiasse Munhoz da Rocha.”

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