
– “Escrevo e vou continuar escrevendo, mas sem ansiedade. O reconhecimento, se vier, é algo para depois e não depende da gente. Acho que não devo gastar minha energia me promovendo. Esta energia deve ser canalizada para a produção em si. O trabalho do escritor tem muito do trabalho do monge. Ele precisa ser paciente e minucioso. Numa sociedade onde a velocidade é a tônica de tudo, o escritor é um antagonista da pressa. A produção do texto é lenta, o reconhecimento é lento.
Reconhecimento é uma coisa, moda é outra”.
Para mim, que o conheço há anos, a declaração acima, de Otto Leopoldo Winck é fácil de entender: é parte de um credo muito pessoal que define este diferenciado escritor paranaense. Ele será um dos personagens de “Vozes do Paraná 7”.
2 – GAÚCHO-CARIOCA
Ele nasceu no Rio de Janeiro, em parte foi criado no Rio Grande do Sul e, depois, em Curitiba, onde concluiu o segundo grau, fez universidade, constituiu família e partiu para uma funda imersão no mundo da literatura e do magistério universitário. A família paterna tem todas as suas origens no RS.
Com a simplicidade de quem parece pedir licença por fazer sucesso, foi ganhando reconhecimento de sua obra: da Academia de Letras da Bahia, ganhou, por exemplo, o Prêmio Nacional Braskem, como romancista; da Biblioteca Nacional, bolsa de trabalho; foi igualmente premiado pelo Governo de Minas Gerais por suas obras literárias.
Otto não costuma expor suas vitórias. Nem sei se as considera como tais.
3 – NOSSAS RAÍZES
“Quando fui procurar um tema para o doutorado, queria um tema que fosse próximo e distante. Nossa língua portuguesa nasceu na Galiza (come se fala na região ou Galícia, como se fala em português). A língua portuguesa nasceu ao norte de Portugal. Por uma questão geográfica e histórica assumiu o nome do reino que a encampou e internacionalizou esta língua.
Antes de Portugal existir como nação, o idioma português nasceu na Galiza.
Quando os cristãos foram reassumindo o controle da península Ibérica, que foi dominada pelos mouros, a língua do que ficava ao norte de Portugal foi se expandindo. Na época a Galiza não era a Espanha. Hoje é uma comunidade autônoma da Espanha”, conta Otto.

4 – PORTUGUÊS ANTIGO
O escritor e estudioso do idioma não se cansa de esclarecer: “O português do Brasil é o português antigo e por isso tem mais associações com o galego. Tem um escritor galego, o Paz-Andrade (Valentín Paz-Andrade – 1898 – 1987). Muitas expressões de comunidades mais isoladas, como do interior de Minas Gerais, são na verdade galeguismos. ”
E mais acrescenta Otto:
“O Guimarães Rosa adotou termos em suas obras que eram do interior mineiro, mas que originalmente era da Galiza. Hoje nós não usamos mais o termo alvorada, a não ser para designar o Palácio da Alvorada, em Brasília. Ela é uma palavra galega. Lá na Galiza eles usavam o termo ‘alborada’ para o nascer do sol. O escritor Paz-Andrade detectou esta influência do galego na obra de Guimarães Rosa”.
5 – UM CATEQUISTA
Otto, uma de minhas fortes admirações, passa a impressão de um apóstolo, catequista: simples, anda de ônibus, no ir e vir das universidades e escolas superiores em que leciona. Não está preocupado com moda, com ser ou não “up-date”. Só quer dar conta de seu recado imediato – passar conhecimentos e dialogar com os jovens em torno do português, da Literatura Portuguesa e Brasileira. E, quando sobra tempo, vai escrevendo. O que, para ele, é pão espiritual.
