
Se tivesse nascido nos arredores de Londres estaria aparando cabelos dos Windsor, mas, nasceu aqui no Paraná, em Bituruna. Nem por isso perde seu charme e a sua qualificação. Trabalha com a tesoura como poucos. Deu jeito nos cabelos da nobreza da terra. Já penteou Braga, Camargo, Pimentel, Arzua, Lerner e outros tantos que, bem penteadinhos, possuem seus retratos expostos nos tribunais e palácios desta cidade. Chama-se Zé Trindade. Só isso, Zé Trindade – e se identifica por: “o garoto humilde de Bituruna”.
Quando chegou à capital, nos idos de 59, procurou uma cadeira de barbeiro.
Passou por algumas até chegar ao Salão Santa Maria, na Praça Zacarias. Lá que conheceu boa parte da sua seleta clientela e, mais do que isso, seus amigos. Zé Trindade fez amigos. Confidentes. Compadres. Não poderia ser diferente. Zé é discreto, sóbrio, valoriza as pessoas sem afetos.
O homem da tesoura conhece a cidade. Viveu no seu centro acompanhando o crescimento e as grandes transformações provocadas pelo seu mais ilustre amigo, Jaime Lerner. Zé Trindade, também, conhece a noite. Ganhou o apelido de Sereno. Não esquece das antigas casas noturnas, chamadas, na época, por Boite ou Night Club. Lembra da Marrocos, da Gogó da Ema, mas preferia a La Vie em Rose, onde dançou a bossa nova tocada pelo sexteto do gaúcho Breno Sauer. Bossa nova que, segundo Zé Trindade, serviu de tema de muitas paixões loucas e sofridas. Afinal, paixão da madrugada sempre é dolorida. Paixão vivida no silêncio e na humildade. Zé sabe dessas coisas do coração.
Cedo, quando a bruma ainda não deixou a Praça Osório, o Zé, com a sua maleta de trabalho, vai atender mais um amigo. Pode ser Lerner, Pimentel, ou talvez outro ilustre que irá embarcar, entre as tesouradas, na estrada da memória do velho barbeiro.
(colaboração de Antonio Carlos da Costa Coelho)
