sábado, 11 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: EM ISRAEL, ELEIÇÕES TERMINAM SEM VENCEDOR.

Presidente propõe acordo: nenhum dos dois partidos com mais votos consegue formar novo governo, e Rivlin faz Netanyahu e Gantz se encontrarem

Benjamin Netanyahu, o presidente Reuven Rivlin e Benny Gantz

Por Szyja Lorber (*)

Após concluir as reuniões com as lideranças dos partidos para ouvir suas indicações sobre quem deve formar o próximo governo de Israel, e nem o primeiro ministro Benjamin Netanyahu, nem o presidente do partido Azul e Branco Benny Gantz recebeu apoio majoritário no novo Knesset (Parlamento), o presidente Reuven Rivlin promoveu nesta segunda-feira, 23, uma reunião entre os dois na tentativa de avançar no processo de construção de coalizões

 

QUESTÃO DE UNIDADE

Netanyahu e Gantz compareceram à reunião nesta segunda-feira à noite.

Logo após o convite de Rivlin, Netanyahu, falando numa reunião de deputados do partido Likud no Knesset, disse que “o único governo que pode ser formado é um governo de ampla unidade” entre seu partido de direita Likud e o de Centro-esquerda Azul e Branco.

 

NETANYAHU TEM 55, GANZ 54

Na manhã de segunda-feira, o Balad um dos partidos que integram a Lista Árabe Unificada, que havia recomendado ao presidente Rivlin o nome Ganz para formar o governo, retirou seus três assentos.

Assim, as comemorações do partido de Ganz foram prematuras em relação ao apoio árabe a seu governo e Netanyahu, que conseguiu obter 55 recomendações dos parlamentares frente às 54 obtidas por Gantz, fez seu próprio pedido para que Gantz concordasse na reunião “que se alcance a unidade e o compromisso entre o campo nacional liderado por mim e o campo de esquerda liderado por Gantz”.

Os 54 assentos de Ganz incluem 10 dos 13 deputados árabes, da Lista Árabe Unificada, que o recomendaram a Rivlin, representam um fato inédito na história da política israelense, mas deixaram claro que não farão parte da coligação governamental de Gantz porque preferem ficar na oposição. A Lista Árabe Unificada concorreu reunindo quatro partidos menores, entre eles o Hadash, comunista árabe e o Balad com os três deputados que retiraram o apoio.

 

EXIGÊNCIAS ÁRABES

O apoio dos partidos árabes não foi gratuito. Evidentemente a tendência deles era apoiar Ganz para impedir que Netanyahu obtivesse mais um mandato. O custo do “apoio por fora”, já que os árabes não pretendem fazer parte do governo, é uma lista de exigências. E a inexequibilidade de todas as exigências levou o Balad a cair fora do apoio.

Uma dessas demandas é combater mais os crimes violentos nas cidades árabes de Israel, justamente onde soldados do exército e policiais israelenses são recebidos com muita hostilidade e não raro, com extrema violência contra eles próprios.

Outra exigência anunciada como “mudar a política de moradia”, é, verdade, uma tentativa de legalizar construções ilegais dos árabes levantadas infringindo legislação, normas e posturas urbanas municipais.

 

IGUALDADE EXISTE

Outras são criar leis para que “bairros judeus e árabes sejam tratados do mesmo modo”, muito embora isso já seja existente. Pedem ainda “melhorar o acesso dos árabes aos hospitais”, o que já é totalmente praticado. Pacientes árabes, judeus ou cristãos recebem atendimento normal idêntico. Só há prioridades em casos de emergência, seja para quem for. Os hospitais israelenses têm muitos médicos e enfermeiros, árabes e cristãos, além dos judeus. Há árabes diretores de hospitais.

Querem também aumentar as aposentadorias dos árabes, mas a lei é igual para todos, e só aumentar as aposentadorias dos árabes seria ilegal e discriminatório.

 

QUESTÃO CULTURAL

Outro problema que querem que Israel resolva é a violência contra mulheres, uma triste questão de caráter cultural que os próprios árabes precisam se conscientizar e aí Israel pode realmente ajudar.

Mais uma das exigências é que o governo israelense reassuma as conversações de paz com os palestinos. O problema disso é a Autoridade Palestina, sob a presidência de Mahmud Abbas, se recusa a reiniciar as negociações de paz. Abbas foi eleito para um mandato de quatro anos e se encontra no 15° ano de governo sem convocar eleições.

Jerusalém próximo ao Muro das Lamentações

POVO JUDEU

Por fim, os árabes pedem a rejeição da lei aprovada no ano passado que declara Israel como o Estado-nação do povo judeu. A lei entretanto, só afirma a identidade nacional judaica estabelecendo que Israel é uma nação judaica, aliás a única do mundo. Existem 22 países que se identificam como árabes e no total 56 são nações muçulmanas, afora dezenas de países cristãos e católicos, a começar pelo Vaticano.

 

ÚNICA DEMOCRACIA

Israel é um país democrático e a oposição é uma das características básicas da Democracia. No entanto, a oposição extremamente radical dos integrantes da Lista Árabe Unificada extrapola em muito a noção de coexistência pacífica entre multiplicidade étnica, cultural e religiosa de todos os cidadãos israelenses que têm direitos e deveres iguais, outra característica fundamental da Democracia.

 

ANTISSIONISTAS

A Lista Árabe Unificada, entretanto, tem como linha condutora de sua política o veemente antissionismo que propugna o fim do Estado de Israel e seus deputados afirmam isso abertamente no Parlamento. Para piorar as coisas, os membros da Lista, com frequência, expressam apoio aos terroristas palestinos condenados pela Justiça. Mas a principal queixa da população árabe-israelense do país em relação aos seus representantes é que eles se preocupam mais em defender os palestinos do que atender os reclamos de seus eleitores.

 

IMPASSE, ATÉ AGORA

Até agora, Gantz tem rejeitado a possibilidade de uma coligação com o primeiro-ministro “sem pré-condições”. Em uma ligação que Netanyahu fez imediatamente após assinar um acordo segundo o qual seu partido Likud e todos os partidos de direita religiosa concordaram em entrar em uma coalizão com Ganz apenas como unidade única e negociar os termos do novo governo juntos.

Netanyahu pediu então a Gantz para formar um governo de unidade nacional sob sua liderança que inclua todos os membros de seu bloco religioso de direita. O líder azul e branco rejeitou a oferta, observando que seu partido recebeu mais cadeiras e, portanto, deveria liderar essa coalizão. O Azul e Branco recebeu sozinho 33 cadeiras, enquanto o Likud obteve 31.

 

CONDIÇÕES DE GANTZ

Gantz insiste que Netanyahu, que está enfrentando acusações de corrupção – são só acusações, por enquanto não há condenação alguma – abandone a presidência como condição para uma aliança entre o Likud e o Azul e Branco. No entanto, as acusações contra Netanyahu, quando comparadas com a corrupção que assistimos aqui no Brasil são risíveis de tão ínfimas.

Mesmo assim, Netanyahu se defende delas.

 

ACUSAÇÕES, APENAS

Embora se possa considerar as acusações contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu como “café pequeno” ao cotejá-las com as  ocorridas no Brasil, elas são levadas muito a sério pela Procuradoria Geral israelense, que ainda está em fase de Investigações. Como não há nenhuma condenação, Netanyahu pode concorrer livremente às eleições. E Ganz, durante a campanha política dizia que Bibi – o apelido popular de Netanyahu – só estava se candidatando novamente para escapar da punição das acusações de corrupção.

 

QUATRO SITUAÇÕES

São quatro as acusações do que seriam os casos de corrupção de Netanyahu em Israel.

O primeiro caso, considerado pela mídia “o mais escandaloso”, teria acontecido quando Netanyahu acumulou o cargo de primeiro-ministro com o de ministro das Comunicações entre 2014 e 2017, e teria oferecido benefícios para a Bezeq (a maior companhia de telecomunicações de Israel) em troca de cobertura positiva no portal de notícias Walla.

O segundo caso é semelhante e teria acontecido com o jornal Yedioth Ahronoth em troca também de cobertura positiva. Netanyahu teria oferecido a garantia de que pediria ao seu amigo milionário norte-americano Sheldon Adelson, dono do jornal Israel Hayom, concorrente do periódico e uma espécie de Jornal Metro, para que não investisse nele para não prejudicar o concorrente Yedioth Ahronoth.

O terceiro caso é o dos presentes. O primeiro-ministro teria recebido presentes de amigos, como uma caixa de charutos e champanhe francesa, supostamente em troca de favores financeiros e pessoais. Ele alega que são meros presentes de aniversário.

O quarto caso, é uma acusação contra a esposa dele, Sara, que teria encomendado um jantar especial a um ‘chef de cuisine’ em evidência para receber visitas, quando administração governamental já fornece alimentos para as refeições na residência oficial.

 

HAVERÁ UNIDADE AMPLA?

“Vamos colocar as coisas da mesa: queríamos formar um governo de direita. Infelizmente, isso não foi possível porque não recebemos assentos suficientes para isso. Gantz queria formar um governo do outro lado. Ele também não recebeu assentos suficientes para fazê-lo.

Portanto, o único governo que pode ser formado é um governo de ampla unidade entre nós. A única maneira de chegar a esse governo é sentar e conversar “, declarou Netanyahu, a propósito dos últimos acontecimentos.

“Se falarmos com a mente e o coração abertos, podemos formar um governo bom e amplo para Israel. É isso que o povo espera de nós”, insistiu Netanyahu.

 

COMO FICA A SITUAÇÃO?

Resumindo: Tal como está, nem o Likud, nem o Azul e o Branco têm o caminho para uma coalizão sem a outra parte. Isto porque Netanyahu lidera um bloco de direita, de ortodoxos e ultra-ortodoxos com 55 parlamentares e Gantz lidera outro bloco de 44 parlamentares de centro-esquerda e de esquerda, juntamente com 10 parlamentares da lista conjunta árabe.

Na posição chave está o partido de direita Yisrael Beytenu (Israel nossa Casa) com oito cadeiras conquistadas, mas que não quer fechar com nenhum dos dois, porque seu líder Avigdor Liberman é contra os religiosos e também contra os árabes, forçando dessa forma uma coalizão do Likud com o Azul e o Branco.

Liberman não endossou nenhum candidato a primeiro ministro. Gantz estava programado para se reunir com Liberman na tarde desta segunda-feira, antes de seu encontro com Rivlin e Netanyahu. Da conversa com Liberman nada se soube até o fechamento desta coluna.

Mas a reunião de Ganz e Netanyahu com Rivlin estava acontecendo no momento em que escrevia estas linhas, porque em Israel são seis horas mais tarde que no Brasil. O presidente Rivlin fez um apelo aos dois e retirou-se da sala para que ambos conversassem a sós. A conversa já dura mais de uma hora.

 

O PODER DO PRESIDENTE

O presidente tem o poder de nomear um dos 120 parlamentares eleitos como o próximo potencial primeiro ministro de Israel. O primeiro-ministro designado deve então tentar formar uma coalizão que conquiste o apoio da maioria dos membros do Knesset.

Depois que um candidato é escolhido pelo presidente, essa pessoa tem 28 dias para apresentar uma coalizão ao novo Knesset e obter um voto de confiança. O presidente pode estender esse período por mais 14 dias.

Se o candidato falhar, o segundo candidato mais provável tem a chance de formar uma coalizão. Se o segundo candidato fracassar, novas eleições serão convocadas, a menos que qualquer um dos 120 deputados tenha o apoio de 61 legisladores que apóiam sua liderança.

Espera-se que Rivlin tome uma decisão no final desta semana ou no início da próxima.

 

(*) SZYJA BER LORBER, professor de História, jornalista pela UFPR, ocupou funções diretivas de jornais em Curitiba; dirigiu por vários anos o mensário Visão Judaica, de Curitiba.

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