
Há um ano precisamente, o livro “Encontros do Araguaia”, uma reunião de entrevistas com personalidades que construíram o Paraná no século XX, dava o seu primeiro passo. Ao redor de uma mesa grande, onde depois seria servido o almoço, o senador Alvaro Dias, então no Partido Verde, deu sinais de que acalentava o projeto da presidência da República. Não bastava apenas a mudança de partido, o que ocorreria depois quando ele se transferiu para o Podemos, mas uma abordagem nova, que incluísse os anseios de mais de 2 milhões de seguidores de suas redes sociais.
MEMÓRIAS
O propósito principal da entrevista não eram as eleições, mas o memorialístico. Alvaro Dias contou ali passagens inusitadas de sua vida.
Ele foi professor, redator de novelas de rádio, locutor de futebol, animador de auditório e, contrariando os desejos do pai, político.
NÃO POLÍTICOS
Admitiu, no entanto, que poderia disputar a presidência da República, desde que as condições se apresentassem. Em hipótese alguma admitiria, por exemplo, figurar em pesquisas de intenção de voto ao lado de não políticos como Luciano Huck ou Roberto Justus. Não há vergonha nisso, apesar do repúdio genérico da população: Alvaro é um político profissional, com passado, presente e, perhaps, um futuro.
NANICO, MAS SOB HOLOFOTES
Quando deixou o PSDB para se filiar ao nanico e imprevisível PV, os amigos de Alvaro Dias o alertaram que sairia dos holofotes.
Principalmente os do Jornal Nacional, onde fazia aparições quase diárias, escalado que era pelos repórteres. Surpreendentemente, ele continuou em foco. Suas posições claras e os projetos que miravam os privilégios dos políticos, ainda que ele inegavelmente os desfrutasse, o mantiveram no ar, ao vivo e em cores.
33,5% DAS INTENÇÕES DE VOTO

O trabalho que vem fazendo parece ter surtido efeito. Levantamento da Paraná Pesquisas mostra que Alvaro Dias lidera a corrida presidencial no estado com larga margem, à frente de concorrentes considerados imbatíveis, como Jair Bolsonaro e Lula. O senador aparece com 33,5% das intenções de voto, seguido de Bolsonaro (19,5%) e Lula (14,4%). O fato de um político que fez carreira em seu estado aparecer na frente nas pesquisas presidenciais não é propriamente uma novidade. Geraldo Alckmin (PSDB), em São Paulo, lidera com 23%, Ciro Gomes (PDT) aparece com 16% no Ceará, ambos à frente. O que causa surpresa, segundo Murilo Hidalgo, diretor da Paraná Pesquisas, é o fato de Alvaro ter se saído melhor, mesmo sem ganhar ainda a projeção de presidenciável na mídia.
REJEIÇÃO
Se há algum reparo a fazer na sondagem promovida pela Paraná Pesquisas, este se cristaliza na ausência do índice de rejeição. Lula, por exemplo, apesar de liderar as pesquisas dos principais institutos de opinião, apresenta uma rejeição do eleitorado no limiar dos 50%. Não votar de jeito nenhum neste ou naquele candidato, já se provou, é um voto consolidado. Votos a favor são flutuantes e sujeitos às mudanças climáticas da eleição. Votos contra jamais.
50 ANOS DE VIDA PÚBLICA
Por fim, há dois fatos a serem lembrados aqui. O primeiro diz respeito a uma exigência familiar. Alvaro conta com o apoio da mulher, Deborah, e dos filhos em sua incursão presidencial, mas não conte com eles quando o assunto envolve a disputa ao governo do Paraná. “Concorra ao Palácio do Planalto. Ganhando ou perdendo, você tem a chance de escrever um livro”, disse-lhe o caçula Alvaro Dias Filho. Agora, quando se trata de trazer a política para dentro de casa, o que ocorre frequentemente nas eleições regionais, há nesse caso uma resistência entrincheirada.
ATÉ QUE AS NUVENS SE DISSIPEM
Outro fato que vale lembrar: ao entrar o ano de 2018, Alvaro Dias estará completando 50 anos de vida pública e política, dos quais 46 com mandato. Houve um intervalo de quatro, de 1991 a 1994, quando ele se recusou a deixar o governo do estado para seu sucessor e amargou quatro anos ao deus-dará até que pudesse disputar o Senado Federal. Alvaro foi eleito vereador por Londrina, em 1968, e dali em diante só fez galgar postos. Foi deputado estadual, deputado federal, governador, senador de vários mandatos, o último conquistado com o cachorro no colo, e um candidato à vice-presidente fugaz na chapa de José Serra, em 2010. Um acordo com o DEM fez que o então tucano fosse substituído por Índio da Costa. Alvaro não tem do que reclamar. Por mensagem de texto, diz que o apoio do paranaense o fortalece, mas vai continuar atuando discreto até que as nuvens do quadro eleitoral se dissipem.
