Por Carolina Macedo – A Cigar Aficionado é uma das maiores – senão a maior – publicação sobre o universo dos charutos no mundo. Aqui na Bulldog, você sempre consegue ler a última edição e várias outras que ficam disponíveis aos aficionados. A capa costuma estampar um ator ou atleta em alta e, claro, apaixonado por charutos. Mas há uma edição que sempre me vem à cabeça: a que estampava uma Cuba diferente, com uma manchete do tipo “O embargo acabou“. A matéria imaginava uma Cuba sem embargo, rica e próspera depois da entrada dos estadunidenses.
A situação atual em Cuba é desesperadora e, embora isso dê muito assunto, a geopolítica da ilha caribenha não é o foco deste texto. O que eu quero discutir é a lógica das proibições – e por que elas raramente funcionam como pretendem.
Recentemente, li sobre os movimentos na Irlanda que, seguindo a vizinha Inglaterra, querem banir o tabaco em poucos anos. Isso me lembrou da Lei Seca nos Estados Unidos. Na minha newsletter, falei sobre um single malt, o Laphroaig, que encontrou uma brecha legal para seguir sendo vendido durante esse período usando a justificativa de ser um remédio. O Rusty Nail, drink estrela de um dos nossos últimos eventos e classificado como inesquecível pela IBA (Internacional Bartenders Association), nasceu justamente naquela época. E eu poderia seguir com exemplos por horas.
Proibir algo torna aquilo muito mais sedutor e interessante – pergunte a qualquer adolescente. A cachaça, bebida tão nossa, foi proibida primeiro na Bahia em 1635 e depois em todo o país em 1649. O período foi difícil, mas a bebida não deixou de existir. Até que, em 1660, aconteceu a Revolta da Cachaça – e é graças a ela que hoje você pode desfrutar de uma boa cachaça sem culpa.
Nos últimos anos, os alambiques brasileiros passaram por um processo de regularização – longo e caro, especialmente considerando que essa é uma bebida produzida majoritariamente por pequenos produtores. Estima-se hoje que existam mais de 40 mil alambiques operando de maneira ilegal no país. Para cada 10 nessa situação, apenas um está legalizado.
Proibir nunca foi a solução. Regulamentar, sim, é fundamental para garantir acesso com segurança e qualidade. Onerar demais esse processo – tributar em excesso – não reduz o consumo; pelo contrário, só alimenta a ilegalidade.
Hoje, em muitas tabacarias dos Estados Unidos, ainda existem caixas de charutos cubanos escondidas atrás do balcão. Abrir o mercado cubano não vai salvar a ilha do seu presente devastador, mas aposto que, depois do boom inicial da novidade, o aficionado estadunidense perderia rápido o interesse – afinal, ele já está muito bem atendido com os produtos de outros países.
Quanto às Ilhas Britânicas, aposto que o tabaco não vai simplesmente desaparecer de lá. E tenho certeza de que produtos duvidosos e sem controle vão ocupar um mercado que, antes, poderia estar sendo regulamentado e taxado.

*Carolina Macedo é curitibana, empresária, cigar sommèliere e pioneira no universo dos charutos, atuando à frente da Bulldog Tabacaria e abrindo espaço para mais mulheres no setor. Fala sobre este universo, além de agendas de cultura e lazer.
