quinta-feira, 18 junho, 2026
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Esporte e Destino: A poesia da Copa do Mundo

Por Marilia MesquitaExiste um calendário invisível que rege a minha vida desde 1994. Naquele ano, assisti a minha primeira Copa do Mundo – pelo menos é a primeira que eu tenho na memória. Desde então, o tempo se mede em ciclos de quatro anos. Ela mexe com toda a minha rotina e, de uma forma quase mágica, suspende a rotação regular da Terra para criar um microcosmo onde o mundo inteiro cabe em um gramado.

A beleza desse calendário esportivo está em sua capacidade de se renovar. Nesta edição, a maior da história, quatro seleções estreantes pisaram no palco principal. Países que muitos teriam dificuldades em apontar no mapa. Mas o futebol tem essa soberania geográfica: ele redesenha as fronteiras no imaginário popular.

Penso no impacto disso para as crianças dessas quatro nações. Até esses dias, elas vestiam camisas de Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Mbappé ou Haaland. Elas torciam por ídolos distantes, de realidades intocáveis. Hoje, essas mesmas crianças se reconhecem no próprio povo. Ver a bandeira do seu país hasteada no maior evento do planeta já é o título. Estar ali é a vitória; o placar final torna-se mero detalhe estatístico diante da imensidão do pertencimento.

Os “pequenos” grandes momentos

Em apenas uma semana de Copa, fomos inundados por cenas que nenhuma tática ou estatística seria capaz de prever. Essa poesia se manifestou com força total na explosão de Curaçao, uma pequena ilha caribenha de pouco mais de 150 mil habitantes que estreou no mundial. Embora o placar final contra a poderosa Alemanha tenha terminado em um doloroso 7 a 1, o futebol provou que não liga para a lógica. No exato momento em que Curaçao balançou as redes e marcou o primeiro gol de sua história em Copas, o que se viu foi uma explosão de pura alegria. E ali, próximo ao banco de reservas, o técnico holandês chorou, provando que aquele gol de honra valeu mais que qualquer taça.

Essa mesma intensidade emocional cruzou o oceano e se fez presente no orgulho samurai, onde poucas imagens foram tão viscerais quanto a do técnico do Japão. Durante a execução do hino nacional, seus olhos marejados e a garganta inflamada ao cantar cada estrofe traduziram perfeitamente o peso e a honra de carregar a alma de uma nação inteira nas costas.

Jogadores de Curaçao comemoram após marcarem um gol durante a partida de futebol contra a Alemanha pelo Grupo E da Copa do Mundo. Crédito: Imagem gerada por IA / Paul Ellis / Afp

Do mesmo modo, a garra de Cabo Verde nos impactou pela resiliência, transformando cada dividida em uma verdadeira questão de vida ou morte. No centro desse turbilhão, o goleiro Vozinha operou milagres, transformando-se em um herói improvável, daqueles que a gente adota e não esquece nunca mais.

O torneio também abriu espaço para o inesquecível grito de rebeldia do Irã, onde cada gol marcado pela seleção ecoou muito além das arquibancadas, deixando de ser apenas uma celebração esportiva para se tornar um desabafo sufocado — um manifesto de resistência de um povo que pulsa por liberdade. Sob essa mesma atmosfera de superação, o mundo testemunhou a consagração da Jordânia. Ao balançar as redes e celebrar o primeiro gol de sua história em Copas do Mundo, a seleção jordaniana escreveu seu nome na eternidade do esporte, transformando os estádios e as ruas de Amã em um cenário de lágrimas e abraços que uniram todo um país em orgulho e identidade.

O olhar brasileiro: a pátria da empatia

E onde entra o torcedor brasileiro nisso tudo? Historicamente, nós temos uma capacidade quase poética de adotar os desacreditados. Quando o Brasil não está em campo, nossas ruas se pintam com as cores dos oprimidos. Vibramos com cada desarme de Cabo Verde, comemoramos o gol de Curaçao como se fosse um gol de placa no Maracanã.

Há algo profundo nessa identificação. O brasileiro, que conhece de perto as dificuldades, o sofrimento e os nós na garganta do dia a dia, enxerga nesses povos a sua própria batalha diária. Torcer pelo “mais fraco” na Copa do Mundo é, de certa forma, validar a nossa própria esperança de que, contra todas as probabilidades, o invisível também pode vencer.

Desde 1994, eu busco essa catarse. E, a cada quatro anos, a Copa do Mundo volta para nos lembrar que, além das fronteiras e das rivalidades, o futebol tem a força única de nos conectar através de uma mesma pulsação. O torneio funciona como um espelho da nossa própria humanidade, mostrando que, não importa quão distantes sejam nossas origens, todos compartilhamos as mesmas lágrimas, os mesmos sonhos e a mesma busca por momentos inesquecíveis de celebração coletiva.

Porque a Copa do Mundo, no fundo, sempre foi sobre o que acontece fora das quatro linhas. É sobre a humanidade que transborda em noventa minutos.

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.

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