Por Marcus Gomes – O trânsito das grandes metrópoles brasileiras há muito tempo deixou de ser apenas um desafio de engenharia viária para se tornar um debate urgente sobre a preservação da vida. Em Curitiba, cidade historicamente reconhecida por seu pioneirismo no planejamento urbano e no transporte coletivo, há um gargalo que cresce a olhos vistos e exige uma resposta imediata: a segurança dos motociclistas.
Diante da explosão da frota e da consolidação dos serviços de entrega por aplicativos, a implantação de uma faixa exclusiva ou preferencial para motos — nos moldes da bem-sucedida Faixa Azul de São Paulo — não é mais uma alternativa futurista, mas uma necessidade humanitária e logística.
Falta engenharia de trânsito na capital? Sim. Por que Curitiba carece de um órgão do tipo? Resposta: os especialistas da Urbs, magnânimos, dizem que não existe congestionamento na capital paranaense, uma vez que isso signficaria velocidade igual a zero. Daí para os carros, daí para as motos é um passinho. Trôpego, é claro.
Para compreender a dimensão das motos, no caso, basta olhar para os números. O Brasil vive sobre duas rodas. Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), a frota nacional de motocicletas já ultrapassa a impressionante marca de 33 milhões de veículos, representando quase 30% do total de automóveis do país.
Quando afunilamos essa realidade para o cenário local, o contraste e o gigantismo do fluxo impressionam. São Paulo abriga a maior frota do país, com mais de 1,4 milhão de motocicletas registradas. Embora menor geograficamente, Curitiba já conta com uma frota que supera as 170 mil motos.
Guerra diária
Se proporcionalmente o volume em Curitiba assusta, o perigo nas ruas é ainda mais alarmante. O ‘corredor’ — aquele espaço informal e invisível entre as faixas de carros — tornou-se uma zona de guerra diária. É ali que se concentra a maior parte dos acidentes (sinistros) gravíssimos.
A experiência da capital paulista com a Faixa Azul, iniciada como projeto piloto e expandida após autorização da Senatran, trouxe dados incontestáveis. Nos trechos testados de altíssimo fluxo, como as avenidas Prestes Maia e 23 de Maio, o número de acidentes fatais envolvendo motocicletas no corredor demarcado caiu drasticamente, chegando a registrar zero mortes durante os primeiros anos de monitoramento em pontos críticos. A segregação visual e o estabelecimento de uma sinalização clara organizaram o trânsito, reduziram o ‘efeito surpresa’ para os motoristas de carros e trouxeram previsibilidade ao fluxo.
O impacto da faixa exclusiva tem, ainda, o dom de organizar o espaço urbano sem diminuir o ritmo da cidade. Pelo contrário. Pacifica o trânsito e protege o elo mais vulnerável da engrenagem logística.
Respeito ao motoboy
Além da frieza das estatísticas, há um componente social e humano que Curitiba precisa abraçar com urgência: o respeito aos profissionais de entrega. Os motoboys e entregadores de delivery não estão transitando por lazer. Eles movem a economia, abastecem o comércio local, alimentam famílias e garantem o conforto de milhares de curitibanos que dependem de um clique no celular. Trabalhando sob forte pressão de tempo, condições climáticas adversas (como a tradicional chuva e neblina curitibana) e a hostilidade das ruas, esses trabalhadores merecem dignidade e proteção do Estado. Oferecer uma faixa dedicada é reconhecer a legitimidade e a importância vital dessa categoria.
Muitos críticos argumentam que Curitiba possui vias estruturais diferenciadas e que a retirada de espaço dos carros aumentaria o congestionamento. No entanto, São Paulo provou exatamente o oposto: ao retirar as motocicletas do zigue-zague entre os carros e concentrá-las em uma faixa própria, o fluxo de automóveis flui de maneira mais constante e sem interrupções bruscas provocadas por pequenas colisões traseiras ou laterais.
Curitiba tem a infraestrutura e a tradição técnica necessárias para adaptar esse modelo. A Linha Verde, as avenidas Marechal Floriano Peixoto, das Torres e a própria Sete de Setembro são exemplos de artérias que se beneficiariam imensamente de um projeto-piloto de faixa única para motos.
Insistir no modelo atual, onde carros e motos disputam centímetros em velocidades distintas, é aceitar que vidas continuem sendo ceifadas por pura inércia pública. Adaptar a Faixa Azul para a realidade curitibana é um ato de inteligência urbana, mas, acima de tudo, um compromisso com o valor mais alto de qualquer sociedade: a vida de quem trabalha sobre duas rodas.
