Por Dinah Ribas Pinheiro – Rita Vaz concebeu em Curitiba uma exposição que precisa ser vista por todas as pessoas que apreciam a beleza e o mistério. Para os desavisados, os “Vestíveis” peças de vestuário coloridas, estampadas ou lisas, cuidadosamente dispostas em suportes, cabides, fios suspensos podem significar o lançamento de uma nova coleção de moda para a próxima estação. Se algum desses visitantes ousar vestir, por pura curiosidade, qualquer um dos trajes exibidos na sala de exposições do SESC Centro, na Rua José Loureiro levará um susto, um desconforto, um soco no peito.
“É preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir”, frase encontrada no velho e no novo testamento, para entender o que cada vestimenta representa. A expressão, com o passar do tempo extrapolou o seu sentido religioso e tanto na Filosofia quanto na Arte incorporou sentidos mais amplos, como a sensibilidade, a consciência crítica, a intuição e a sabedoria. Esses elementos são necessários para se entender o que a artista está dizendo neste seu relato estético.
A mostra que recebeu o nome de “Insubmissas” complementa a dissertação de mestrado em Artes Visuais: “Memórias de mulheres que teceram resistências à ditadura no Brasil: arte e política”, no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Estadual do Paraná. Segundo resumo feito pela autora do trabalho “A pesquisa costurou a memória das mulheres militantes que subverteram a ordem vigente, tanto na vida pública quanto na privada, com os tecidos do inconformismo explicitado nas obras plásticas autorais, e alinhavou círculos de mulheres e homens que se levantaram na luta por uma sociedade mais livre e igualitária”.
Bernadette Panek, artista plástica, professora da Universidade Estadual do Paraná e curadora da exposição tece suas impressões. “Rita veste revolução por meio de seus trabalhos enquanto constrói o grito de um levante por meio da alegria das cores – um contraste com a tragédia dos eventos da imposição ditatorial. Um levante no qual as mulheres vestem cores e palavras para gritar por uma revolução que não pode acabar. A insubmissão é necessária sempre; com punhos fechados, elas se mantêm na luta.
Enquanto investiga, por meio das artes plásticas, a continuidade de repressões que insistem, Rita constrói memórias. Com fios e tecidos, ela trama um hino à liberdade. Essa artista, ao mesmo tempo em que aborda a luta das mulheres e a memória de tempos sombrios, sensibiliza e permite a reflexão da relevância da participação política”.
Memória

O tema de costuras e bordados, sempre fascinou e esteve presente no imaginário das mulheres em vários períodos da história antiga e recente. A mitologia grega está repleta dessas histórias recheadas de misticismo, amor, alegrias e sofrimento. Penélope, esposa de Ulisses, enquanto aguardava o retorno do marido, que estava no comando da guerra de Troia, tecia uma mortalha durante o dia e a desfazia à noite para adiar o novo casamento, já que os pretendentes estavam ávidos para receber e enterrar o defunto e assim ocupar o seu lugar.
Ainda na antiga Grécia, a história de Filomela (frequentemente confundida com Filomena) é uma trágica lenda de violência e vingança. Filomela foi estuprada por seu cunhado, Tereu, que cortou sua língua para silenciá-la. Ela denunciou o crime bordando a história em uma tapeçaria para sua irmã, Procne, e ambas se vingaram antes de serem transformadas em pássaros pelos deuses. Essa narrativa é frequentemente lembrada como um símbolo de como a costura e o bordado podem funcionar como linguagem, memória e denúncia.
Ao chegar na exposição o olhar do espectador se depara, de início, com a instalação “…Só queria embalar meu Filho…”, concebida inicialmente em 2018, e que reúne almofadas bordadas por dezenas de artistas e bordadeiras de vários estados brasileiros, cada uma homenageando pessoas mortas ou desaparecidas durante a ditadura militar no Brasil. O nome de cada pessoa desaparecida e bordada naquele objeto macio é ao mesmo tempo um ato de amor e indignação. O tapete vertical formado com as peças, uma do lado da outra, nos remete a uma passarela, de onde, apesar da beleza plástica e da delicadeza, algum sensitivo pode intuir de uma forma onírica que emerjam pregos com pontas afiadas, giletes e facas enferrujadas. “Há uma proposta de experimentar a beleza das expressões, das cores e das estampas, mesmo que seja como visualidade que mantém o drama submerso. Parafraseando Chico Buarque, (na canção Futuros Amantes) os “escafandristas” virão explorar e os espectadores decifrarão, ou não” resume a artista.
O título da obra imersiva faz referência à dor das mães que perderam seus filhos, e remete à canção Angélica também de Chico Buarque, inspirada na estilista a ativista Zuzu Angel, que procurou durante muitos anos, informações sobre o desaparecimento de seu filho Stuart Angel, morto durante a ditadura no Brasil. O trabalho que possui uma comovente harmonia estética deu origem ao livro: “Tecendo Memórias e Ausências: a Arte como Resistência e Sobrevivência”, escrito por Rita e publicado em 2023. As almofadas, amarradas umas às outras com fios vermelhos, sobre um tecido também vermelho sussurram que todos aqueles personagens estão de mãos dadas, em repouso, após sofrerem a brutalidade de um sistema perverso que calou a voz dos que ousavam se insurgir contra os preceitos impostos.
Rita Vaz fala como foi o processo de concepção e feitura da instalação construída com a colaboração de oitenta e nove bordadeiras e seis bordadores de nove estados do Brasil. “Inicialmente fiz um recorte dos 434 mortos e desaparecidos, reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade. Selecionei 243 pessoas, cujos corpos não foram entregues aos familiares e não cumpriram os rituais do luto. Criei uma página no Facebook solicitando a colaboração voluntária para realizarem um bordado com o nome, data de nascimento e morte dos desaparecidos. Encaminhei pelo correio a biografia de cada um. Algum tempo depois os bordados retornaram pelo correio”. A autora complementa, falando das cartas comoventes que acompanharam os trabalhos.
Rita Vaz é uma artista engajada que, desde muito jovem, começou a perceber as injustiças da vida. Mineira de Três Pontas, as primeiras leituras na juventude despertaram a sua sensibilidade, a começar pelo clássico Os Miseráveis, escrito por Victor Hugo em 1862 e que tem a Revolução Francesa e seus ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade como pano de fundo. Outro autor que forjou a sua formação básica como humanista foi Eduardo Galeano, escritor uruguaio falecido em 2015. Com sua obra Venas Abiertas de América Latina, de 1971, Galeano analisa a história política do continente, desde o período da colonização europeia até a Idade Contemporânea, onde se debruça sobre a ditadura militar ocorrida no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.

A mostra do SESC, a meu ver, deveria fazer um giro por todos esses países para refrescar a memória dos que esqueceram a tragédia ocorrida entre as décadas de 1960 e 1980, quando milhares de pessoas foram torturadas, mortas e desaparecidas sob o comando dos militares de plantão. E mais ainda, mostrar aos mais jovens o que foi aquele período. No Brasil, os anos de chumbo que duraram de 1964 a 1985 inspiraram muitos artistas da Literatura, do Cinema do Teatro e das Artes Visuais.
Rita, em sua pesquisa minuciosa enriqueceu a sua dissertação de mestrado recorrendo ao depoimento de três mulheres que pagaram o preço pela ousadia em desafiar o regime e continuam vivas e lúcidas para testemunhar o que viveram. Insubmissas termina sua temporada no próximo dia 2 de maio. A sugestão é se apressar para não perder esse verdadeiro espetáculo.
“Nas entrevistas que realizei com Cecília Coimbra (Rio de Janeiro/RJ), Amelinha Teles (São Paulo/SP) e Judite Trindade (Curitiba/PR), interessava-me saber o que as move no mundo, no que acreditam, que histórias querem contar, como foi o processo de conscientização, o início da militância, se pensavam e discutiam o feminismo, o que as ajudou a seguir em frente após as prisões e o que desejam, pelo que lutam hoje”.
No depoimento de Amelinha, na época da entrevista com 83 anos, ela relata […] “mesmo quando eu estava presa, eu sabia que eu podia ser morta a qualquer momento, ninguém sabia que eu estava presa, não tinha nenhum documento que provasse que eu estava presa, eu fui assinar um mês e meio depois. Eu sabia o perigo que eu estava correndo […] eu já tinha lido muito sobre a questão da tortura que estava acontecendo no Brasil”. Judite pertence ao Grupo Geração 68 – Tortura nunca mais, do Paraná, doutora em História pela Universidade federal do Paraná. Cecília Coimbra fez a sua formação em alfabetizadora de adultos, usou o método Paulo Freire para dar luz a centenas de iletrados. As três estão presentes plasticamente na exposição na forma de fotografias impressas em tecido de algodão com intervenção de bordados. Amelinha tem escrito na sua vestimenta a palavra Liberdade, Judite aparece com a inscrição Memória, Cecília foi agraciada com a frase A Vida insiste
Cabeças e Vestíveis

Há uma série de Cabeças feitas pela própria artista que formam um conjunto para lá de instigante. Construídas com retalhos coloridos “parecem dizer que foram remendadas, suturadas, restauradas e recolocadas sobre os corpos que as perderam. Assim, construí cabeças que discutem o significado de “perder a cabeça”. Relaciono isso às mulheres que ousaram se contrapor às expectativas que havia sobre elas, sendo nomeadas como “sem cabeça” ao mesmo tempo que, em inúmeras situações, faz-se necessário o uso de máscaras, como mecanismo de defesa e de proteção. Lembro ainda que as militantes, ao serem sequestradas, eram encapuzadas, suas cabeças eram cobertas, como se, ao utilizarem capuzes, os militares lhes tirassem a identidade, roubassem-lhes os rostos, tornando-as acéfalas. As cabeças que construí como máscaras coloridas podem ser vestidas, não como ocultamento, mas como revelação de um rosto restaurado” confirma a artista.
Depois do encantamento da obra-prima “…Só Queria Embalar Meu Filho…” é preciso parar e refletir em frente aos vários vestidos e adereços, expostos em suportes e manequins, um mais interessante que o outro, e todos com a sua sabedoria própria. As tramas que utilizaram linhas, agulhas, tesoura, aviamentos, pontos, bainhas, alinhavos, franzidos, caseados e acabamentos foram manipulados pela própria artista e receberam nomes que se relacionam com a essência da mostra. Duvido que algum especialista fale com mais verdade sobre esses vestíveis do que a própria autora. “Vestir desejo e insubordinação construí costurando círculos de linho de cores variadas, sobre os quais bordei as palavras subversão, levante e revolução. Os círculos foram amarrados uns aos outros, com fios vermelhos. Para vesti-lo, é preciso entrar pelos buracos que ficam entre os círculos, não de uma maneira óbvia, é necessário interagir com o elemento, manuseá-lo e experimentá-lo… Vestir levantes, foi feito com linho em vários tons de vermelho. Insubmissas, obra que nomeia a exposição é composta de almofadas circulares, costuradas umas às outras, sobre as quais foram amarrados outros círculos com bordado da palavra Insubmissas, construída com a participação de muitas mulheres, que bordaram seus próprios nomes”.
E continua, Ditadura Nunca Mais foi construído pela costura de toalhinhas de crochê brancas, com a parte central em tecido, sobre os quais foi bordado, em vermelho, a frase Ditadura Nunca Mais. Essas peças, essencialmente fazem parte da minha coleção pessoal de objetos de memória, recolhidos ao longo da vida, muitas feitas pela minha mãe, pelas minhas irmãs e por mim. Algumas presenteadas por amigas que herdaram de suas mães e outras tantas encontradas em bazares e brechós. Minha paixão por esses trabalhos manuais está tanto na questão estética, que, para o meu olhar são de uma beleza extraordinária, quanto no respeito ao tempo dedicado por essas mulheres a concebê-los Esta pesquisa quer mostrar, tanto na urdidura quanto na trama, os fios que se entrelaçam, o passado que toca o presente, as memórias, insubmissões, levantes, a arte enquanto gesto que impulsiona o desejo de transformação social e política. Quer construir a memória do passado, lembrar de onde viemos e inventar outros modos de existir”.
Rita Isabel Vaz é graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná, especialista em Educação pela mesma universidade, graduada em escultura pela Universidade Estadual do Paraná e mestra em Artes Visuais pela Universidade Estadual do Paraná.
Exposição Insubmissa
- Últimos dias: Até 2 de maio
- Horário: quarta e quinta-feira, das 12h30 as 18h, e sábado das 9h às 13h. No feriado de 1º de maio, não estará aberta.
- Local: SESC Centro (Rua José Loureiro, 578, 5º Andar)
