Psicólogo graduado pela PUC-PR, Fernando Simonetti é o novo colunista do Mural do Paraná.
Quinzenalmente, às quintas-feiras, ele irá abordar a prática psicológica de forma descomplicada na coluna Divã de Ideias, facilitando o acesso àqueles que talvez tenham criado barreiras pessoais e no fundo desconheçam o trabalho na pratica. E também com pitadas de filosofia.
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Psicoterapia: gostar do processo é opcional
Talvez eu traga uma perspectiva um tanto desanimadora sobre a psicoterapia. Mesmo assim, gostaria de inaugurar nosso espaço de conversa com essa provocação.
Muitas vezes, ouço relatos que descrevem o retorno às sessões como algo leve, quase que naturalmente prazeroso.
Para mim, essa visão soa um tanto estranha, talvez pela forma como compreendo o trabalho clínico e o esforço que percebo nos pacientes ao iniciar, continuar e persistir.
Na minha experiência, grande parte do processo terapêutico é, sim, desconfortável. E, de fato, precisa ser.
O primeiro passo, o de chegar, já é um desafio. Ele exige uma abertura inicial, um contato com as questões que motivaram a busca por ajuda. Voltar também costuma ser difícil. Leva tempo até que as primeiras peças se encaixem e o trabalho comece a fazer sentido.
Se não é por puro prazer ou vontade, então o que impulsiona o paciente a retornar? Acredito que existem diversas razões para a continuidade de um processo.
Frequentemente, o retorno é uma combinação de insistência e expectativa sobre o que ainda pode ser descoberto. Essa motivação se renova quando algo começa a fazer sentido, seja dentro ou fora do consultório.
Às vezes, surge como um insight, mas a terapia se alimenta esporadicamente disto.
O vínculo com o terapeuta também é um pilar fundamental. Quando essa conexão se estabelece, o paciente encontra no espaço terapêutico algo que, genuinamente, pode se permitir gostar.
No entanto, grande parte do trabalho é marcado pelo desconforto. O que garante a continuidade é justamente a possibilidade de construir significados a partir do incômodo.
Curiosamente, o trabalho ganha ainda mais relevância quando a resistência em retornar começa a ter função. Nem sempre é preciso sentir vontade ou desejo; às vezes, basta simplesmente voltar.
Com o tempo, você acaba percebendo que as formulações pessoais de sentido aparecem como curativo para tamponar e diminuir gradualmente a dor. Não é por acaso. Abordar certos temas exige um esforço muito particular de quem está ali, disposto a se confrontar.
Por isso, considero mais autêntico quando os relatos sobre a psicoterapia vêm em outros tons: quando surgem de pequenas dificuldades, tentativas de compreender melhor o que se passa naquele momento e reflexões que atualizam a jornada.
Retornar à sessão também implica em se convencer, gradualmente, que as próprias razões para seguir têm alguma lógica e algum sentido.
Quando o retorno parece fácil demais, talvez algo esteja desajustado. A força que impulsiona o paciente – essa mistura de resistência e persistência – é parte essencial do trabalho. É ela que geralmente sinaliza possíveis caminhos de crescimento e mudança.
E crescer dói.
Gostar ou não do processo, além de opcional, é meio desnecessário.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
