
Transcrevo para o leitor opiniões de dois respeitáveis paranaenses, gente de massa cinzenta de valor comprovado – Nêgo Pessoa e Eloi Zanetti – escritores, homens de comunicação. Essas opiniões trabalham minha análise recente neste espaço sobre a presença de ítalo-gaúchos no comando do futebol brasileiro:
“Aroldo:
A propósito da sua coluna sobre os técnicos italianos da Seleção Brasileira – os ítalo/gaúchos – e o comentário sobre a identidade do povo de dois estados: Rio Grande do Sul e Minas Gerais, quando trabalhava no Bamerindus, por orientação do Sergio Reis, buscávamos uma definição para a identidade do paranaense.
A tese de marketing era: gaúcho é gaúcho, mineiro é mineiro, carioca é carioca, paulista é paulista, baiano é baiano e todos têm a sua maneira peculiar de se comportar. Mas o paranaense o que é? Qual o seu comportamento típico? Não dava para explicar, pois a mescla de raças que compõem o nosso Paraná é muito variada e recente na história; grosso modo, somos um estado jovem. Mesmo assim fizemos alguns esforços para descobrir esta identidade e ajudar o paranaense a se “enxergar” – foi assim que nasceram a campanha Bicho do Paraná, o documentário Esta é a Nossa Terra e o projeto Pró-Memória Paranaense do qual você (aroldo) fez parte como entrevistador.
NOSSA VANTAGEM
Aconteceu um fato curioso: em uma mesma semana eu estive em Belo Horizonte e Porto Alegre e comentei sobre a falta de identidade dos paranaenses a dois diferentes amigos; o mineiro me disse: “Mas vocês só têm vantagem com isto, poderão ser o que quiserem, aqui a gente já nasce falando “uai” e tem que se conformar”. No outro dia, em Porto Alegre, o amigo gaúcho, sem saber da fala do mineiro, repetiu as mesmas palavras: “Vocês só têm vantagem com isto, poderão ser o que quiserem, aqui a gente já nasce pilchado”. Na hora deixei de procurar a identidade do paranaense, pois compreendi que ela ainda está para ser formada. É um processo em construção, talvez daqui a algumas décadas consigamos nos identificar melhor como povo.
“…Thiago de Mello me disse que em conversa com o sociólogo Gilberto Freire a respeito da grande mistura que era o povo brasileiro, este lhe afirmara: ‘Thiago, se você acha que o brasileiro é uma mistura danada, precisa ir ao Sul, ao Paraná, lá sim a mistura é grande, e todo o futuro está com aquela gente’”.
Lembrei-me também de uma conversa que tive certa vez com o poeta Thiago de Mello a respeito do nosso estado. Ele me disse que em conversa com o sociólogo Gilberto Freire a respeito da grande mistura que era o povo brasileiro, este lhe disse: “Thiago, se você acha que o brasileiro é uma mistura danada, precisa ir ao Sul, ao Paraná, lá sim a mistura é grande, e todo o futuro está com aquela gente”.
RICHARD BURTON
E a respeito do comportamento mineiro – hoje divido minha vida entre Curitiba e a Serra da Mantiqueira – Sul de Minas – encontrei este relato sobre o jeito mineiro de ser no livro do grande explorador inglês Sir Richard Burton que percorreu a Estrada Real e explorou o percurso do Rio São Francisco em 1860 – Olha só como ele descreve o mineiro – exatamente como eles são hoje: “O mineiro – no sentido do homem cujos antepassados nasceram na região – é facilmente reconhecido, mesmo entre os brasileiros, e suas peculiaridades não podem ser explicadas, ‘pela bazófia e pelo culto ao dinheiro’. É um tipo alto, magro, ossudo, que, quando exagerado representa nosso popular D. Quixote esguio e macilento… o arcabouço é musculoso e bem adequado às atividades físicas. O pescoço é comprido e a laringe proeminente; ao tórax falta espessura. Os quadris e a pelve são, em geral, estreitos, as juntas, punhos e calcanhares finos, e as pernas, como acontece muitas vezes entre as raças latinas, não são proporcionais aos braços na força. A obesidade é rara. A tez do mineiro é de um pardo escuro, raramente corado nas faces, sua expressão é mais séria do que a do europeu e caminha de forma leve como os tupis. Apreciam os exercícios físicos e adoram caçadas que chegam a durar até dois meses. A raça é longeva e muitos chegam aos 100 anos…”
Burton vai explicando em minúcias o comportamento do povo de Minas, mais ou menos como você comentou sobre os ítalo-gaúchos, o que com certeza não dá para fazer com o paranaense. Sobre o curitibano já podemos identificar um tipo, mas este também está em mutação e a conversa é outra.
“É UM ENSAIO SOCIOPOLÍTICO”
O jornalista e escritor, conhecedor por excelência do futebol brasileiro, especialização que divide com suas paixões no âmbito das teses de Economia, Carlos Alberto Pessoa (o Nêgo Pessoa), me mandou a seguinte mensagem a propósito do mesmo assunto:
“Estava, como Inês, posto em sossego, eis senão quando toca o telefone; com a presteza que me é familiar atendo; e uma voz pergunta sem supérfluos preâmbulos;
– Leu o que o Aroldo escreveu hoje no Indústria& Comércio? Então, leia; depois a gente fala; e desligou.
Fui à internet, achei a edição virtual do nosso bravíssimo I&C, e nele reencontrei minha velha conhecida – a coluna do Aroldo Murá, tour de force cotidiano como o pão nosso de cada dia; algo assim como cinco mil caracteres cinco vezes por semana, 52 semanas por ano! Como diria o Nelson Rodrigues – algo de deixar o remador de Ben Hur morto de inveja; ufa!
Aroldo fez sintético e magistral ensaio sociopsicológico sobre os três últimos “treineros” do Escrete; Felipão, Dunga e, agora, o Tite. Todos gaúchos, tchê! Bá! Mera coincidência? Todos ex jogadores! Todos ex baques (sic) como falava o Valdomiro Castilhos, de Bagé, mui bem adaptado à minha Irati, ele também treinador nas horas vagas.
Olha, temos aí belo material para interessantíssima tese universitária, tese de doutorado, claro; o próprio Aroldo deveria se candidatar; e escrevê-la com seu texto personalíssimo, claro, objetivo. E nos pouparia dos garranchos semiletrados da rapaziada de hoje em dia, que não tomou chá com o Dalton, ignora o Eça, desconhece o Machado.
Vamos, Professor! Ânimo. Do seu amigo, admirador CARLOS ALBERTO PESSOA, mas pode me chamar de Nêgo”.
