
O adeus do palhaço Tiririca na Câmara Federal sequer interrompeu o vai-e-vem de deputados no plenário. Afinal, por que tantos vão e por que tantos vêm em horário que deveria ser de expediente? Tiririca diz ter subido à tribuna pela primeira e última vez. Não é verdade. Vídeos da TV Câmara registram que ele foi ao púlpito em outras duas ocasiões no último mês. Talvez em sessão esvaziada ou menos animada.
ASSÍDUO NINGUÉM
O artista foi eleito deputado federal por São Paulo com um mundaréu de votos. Carregava um slogan afinado com sua verve humorística: “Vote em Tiririca. Pior que tá não fica”. Ficou. Não por culpa do palhaço. Ele foi um assíduo ninguém em mais de 300 sessões da Câmara. Apresentou poucos projetos, a maioria relacionada aos artistas de circo – até do pedágio ele quis isentá-los – e não levou nenhum. Disse sim ao impeachment de Dilma e não ao prosseguimento da denúncia contra Temer.
Mais nada.
CAIXA GORDO
Em seu discurso de oito minutos (longos oito minutos) disse o óbvio: “estou envergonhado”, “deputados ganham muito bem”. Ele certamente ganhou. Considerando o salário bruto de R$ 33.763,00 de um deputado federal, ao fim de 2018 ele terá amealhado em vencimentos a soma respeitável de R$ 3.511.352,00. E tudo que ele precisou fazer foi comparecer às sessões de terça a quinta-feira. Esse negócio de representar o povo é bobagem.
DEMOCRACIA EM PANTUFAS
Se Tiririca não existisse, ele seria um Cacareco, seria um Macaco Tião, seria um Biro Biro, com o qual, aliás, guarda certa semelhança. É o voto de protesto que a Justiça Eleitoral insiste em não reconhecer. É a democracia em pantufas. Confortável apenas para o eleitor que digita o número do candidato registrado. O voto nulo ou branco afronta as regras, apesar de “democraticamente” disponível. Vai para as estatísticas, não para o balaio da apuração.
ELE CANSOU
O que o humorista fez foi personificar o voto de protesto (assim como Biro Biro) e apresentar-se como candidato. Conquistou 1,3 milhão de votos em 2010 na primeira eleição para deputado federal e 1,06 milhão na segunda, em 2014. É certo que conseguiria o terceiro mandato (e o quarto, e o quinto…), mas ele cansou.
JULIETA TÁ ME CHAMANDO
Quem acompanha a carreira de circo de Tiririca, sabe que o então desdentado comediante surgiu em cena com um desses hits sazonais que costuma martelar os ouvidos do transeunte abestalhado em dias de Carnaval. “Julieta tá me chamando”. Já vai tarde, Tiririca. Pior que esse circo, não fica.
