Acabei de ler “Roberto Civita”, uma biografia de peso – literalmente – escrita pelo jornalista Carlos Roberto Maranhão, curitibano que aqui se revelou nos anos 1970s, profissional diferenciado tendo trabalhando em O Estado do Paraná e na sucursal da Veja e na Placar em Curitiba.
Depois Maranhão – seria mesmo um desperdício não chamá-lo para um dos dois grandes centros jornalísticos da época, Rio e São Paulo -, foi fisgado pela Editora Abril, onde atuou como repórter, redator, editor, diretor da Vejinhas, por 40 anos. Adotou a Paulicéia e nunca mais de lá saiu. Casou novamente e é pai de duas filhas.
IMPRENSA DO BRASIL
Acho que daqui para frente é impossível se estudar a história da imprensa brasileira sem incluir um capítulo todo particular sobre o livro de Maranhão. O trabalho consumiu uns quatro anos de exaustivas e precisas pesquisas, faz papel que em qualquer país culturalmente respeitável, deveria ter sido, em primeiro lugar, da academia. Mas a academia no Brasil, faz basicamente seus “papers”, a maioria de consumo restrito à própria guilda dos mestres.
Maranhão teve sempre essa característica: nunca foi amador e levou a sério, sempre, as missões recebidas.
“CANSAÇO”

Em Curitiba, nos dias em que aqui trabalhou – na época, era casado com a também jornalista Malu Maranhão (por onde anda?) -, ficou conhecido por “dar uma canseira” nas fontes. Delas tirava o máximo: perguntava, perguntava, perguntava muito. O resultado final era surpreendente, como regra.
Os textos jornalisticamente irrepreensíveis acabavam sempre sendo algum tipo de lição para os profissionais mais moços, para os da sua geração e mesmo para os de uma geração que o precedeu no jornalismo (como a minha).
Com o tempo, essa obsessão de Carlos Maranhão pela qualidade fez deles um ponto de referência dentro da Editora Abril, o maior fenômeno editorial já registrado na América Latina. Ele acabou sendo responsável pela coordenação dos cursos de Jornalismo da Abril, a partir dos quais seriam selecionados jornalistas de novas gerações, a maioria formada em Jornalismo, para os quadros da empresa dos Civita.
SABEDORIA DO PUBLISHER
Maranhão não fez curso superior de Jornalismo. Mas poucos souberam captar com tanta precisão a missão de fazer uma biografia de dimensões e repercussões históricas.
A biografia dos Civita – o livro começa com o fundador da Editoras Abril, Victor Civita (o CV) e se concentra em Roberto, o grande capitão da organização que, num determinado momento, chegou a ter 10 mil funcionários no país, escritórios e sucursais no exterior, correspondentes internacionais.
Teve o “crème de la crème” do jornalismo brasileiro, alguns dos quais acabaram brigando entre si, ases como Elio Gaspari, José Roberto Guzzo, Mino Carta, Luis Carta, Roberto Pompeu de Toledo, Diogo Mainardes.
Das muitas lições que Roberto Civita (CV, como era chamado dentro da Abril), legou aos que trabalhavam com ele, Maranhão cita por diversas vezes, ao longo da biografia, esta recomendação: a chamada “separação entre igreja e estado”: Traduzindo: publicidade e redação não se misturam e não podem interferir uma na outra.
BOA RECEITA

A fórmula da separação sempre deu certo. E Roberto manteve-se coerente, misturou as coisas. Talvez uma vez tenha “caído na tentação”. Mas foi um pecado leve para esse Civita que nunca se recuperou do choque de ter-se descoberto judeu. Isso aconteceu quando ele, adolescente, vivia em Nova York.
Os pais – Victor e Silvana, judeus de origem italiana vivendo nos Estados Unidos inicialmente, haviam se convertido ao catolicismo e não revelaram ao filho essa condição. O irmão dele, Richard (ou Ricardo), com quem vivia em desencontros pela maneira de atuação, manteve-se cristão católico, devotíssimo, segundo Maranhão.
Enfim, ler “Roberto Civita” é importantíssimo para se entender parte do Brasil dos anos 1960 até 2013.
