Minha análise de ontem, 9, com o título “Quem vai governar Curitiba?“, merece alguns reparos, concordo. Ressalto: só em parte. Isto porque aceito observações prudentes sobre meu texto, enviadas por amigos da coluna. Algumas são de autoria de produtivos analistas políticos.
Há, no entanto, observações que não considero corretas.
Numa delas, sugerem tais leitores que não considere Jaime Lerner “tão” distante de Gustavo Fruet como teria– segundo esses leitores – ficado implícito em minhas observações.
E o motivo seria um bem forte: o escritório do urbanista Lerner está participando da licitação (PMI) para o projeto da linha de Veículo Leve sobre Trilho (VLT), novo modal curitibano de mobilidade. O ponto de partida localiza-se nos trilhos férreos, na Barreirinha, indo até o bairro do Pinheirinho. A matéria, na verdade, não contém novidade, tem sido registrada pelos meios de comunicação e Lerner insiste há tempos no VLT em suas pregações contra o metrô e pelo fortalecimento do BRT.
Isso é suficiente para identificar Lerner com a candidatura Fruet, já que o urbanista participa de licitações e conquista de serviços em todo mundo?
Resta saber quanto de benefício o VLT trará para melhorar a mobilidade urbana até na Região Metropolitana. De qualquer forma, o modal preveria muitos pontos de baldeação, conectando os passageiros com ônibus das mais diversas linhas.
Admitamos, então, que Lerner não está distante de Fruet e que até eles “se conversam muito”, como assegura um leitor. Mas isso não é atestado de que JL esteja com Fruet para prefeito.
Em diversas ocasiões, até em conferências, ouvi, por exemplo, Lerner fazer duras críticas às chamadas “vias calmas”, que limitam a 30/40 KM hora o trânsito de carros em certas áreas de Curitiba. E ele tem sido igualmente um cáustico crítico “àquilo que fizeram com o IPPUC”, a outrora chamada Sorbonne do Juvevê, e a partir da qual o urbanista JL ganhou o respeito mundial.
Outro leitor, defensor de Fruet, apressa-se em registrar: “as vias calmas diminuíram em 40% as mortes nas regiões em que foram implantadas”.
Só não menciona a que período de tempo se refere a bem-vinda notícia.
A CLASSE MÉDIA

Outro leitor, não menos empolgado com a sucessão da Prefeitura de Curitiba, diz-me ter lido uma sondagem de opinião pública em que Rafael Greca apareceria como o preferido da classe média. O que, então, disse, contraditaria minha assertiva sobre a classe média lernista, que apontei como amplamente anti-Greca de Macedo.
Mantenho a opinião: Greca de Macedo pode ter boa votação em parte da classe média. Em parte. Mas os seguidores do Lerner, com grande poder de multiplicar opinião, não querem saber do ex-lernista Rafael, ex-ministro do Turismo, responsável pelo fiasco das caravelas dos 500 anos. E sobre quem o jornalista Juca Kfoury dedicou pesadas críticas, acusando Greca de ter-se envolvido em questões nebulosas com os bingos de triste memória.
Nunca se provou nada contra Greca, nesse capítulo, mas Juca não retirou jamais suas acusações.
“Em diversas ocasiões, até em conferências ouvi, por exemplo, Lerner fazer duras críticas às chamadas “vias calmas”, que limitam a 30/40 KM hora o trânsito de carros em certas áreas de Curitiba. E ele tem sido um cáustico crítico “ao que fizeram com o IPPUC”, a outrora chamada Sorbonne do Juvevê, e a partir da qual o urbanista JL ganhou o respeito mundial.”
Por dever de justiça, sou obrigado a reconhecer que houve uma série de outras acusações pesadas contra Greca. A maior parte delas gestadas por um tipo militante petista, procurador da República (MPF), José Francisco de Souza, um militante esquerdista obsessivo, que jamais trabalhou com isenção política. Mas ele produziu inúmeras representações contra Greca, algumas das quais – nos tempos de hoje, de Lava Jato – certamente seriam levadas adiante pela PGR.
DIVIDIR POR CINCO

Eu ainda pergunto, num rápido olhar sobre a poderosa classe média, a grande responsável pela eleição de Fruet em 2012: como ela dividirá seus votos, se Fruet, Greca, Maria Victoria, Ney Leprevost e Requião Filho são sabidamente “herdeiros e frutos da classe média”, como assinalou ontem a este espaço um sociólogo com cátedra na UFPR?
Para refrescar memórias, MM, leitora de formação na área da Saúde, me lembra que foi a classe média que elegeu Fruet em 2012. Em áreas do Batel, lembra, por exemplo, o atual prefeito chegou a ter 80% dos votos.
É verdade. Mas é preciso reconhecer que há um universo de decepcionados com a administração Fruet, chamada de “zero obras”, como o classifica um militante do PT encastelado num bom emprego em estatal federal. Ele é um dos que dizem muito “frustrado com o abandono da cidade”.
Se é difícil imaginar quem levará os votos da classe média, é importante desviar um pouco o olhar dos dois candidatos que apareceriam em sondagens de opinião não registradas na justiça eleitoral (e sequer podem ser nominadas em percentuais), como os preferidos, Fruet e Greca de Macedo.
“NOVIDADE” LEPREVOST
Eu, cá com os meus botões de velho observador de eleições curitibanas, não desprezo o crescimento de Ney Leprevost, que não reconheço como dono de grandes méritos biográficos e nem de coerência política (esteve sempre com Richa, ano passado rompeu com ele, dizendo a partir daí gatos e lagartos do governador).
Mas não posso ignorar que Leprevost vai crescendo na aceitação de um eleitorado que até então nunca ouvira sobre sua existência. Ou quase nunca.
Esse eleitorado é parte formada por aquele lúmpen urbano, o morador das periferias pobres da grande cidade, consumidor de conversas de botequim, grudado nos programas populares da TV e dos de baixaria policialesca, gente com raquíticos horizontes profissionais e pessoais, baixíssima escolaridade e, em grande parte, no universo da baixa renda e do desemprego.
Esses homens e mulheres mais ou menos sem face e sem voz, juntam-se, no entanto, nos forrós, nos bailes funks, nos cantinhos de terra que sobraram para o futebol de várzea. Apertam-se nos ônibus lotados. E também nos cultos evangélicos de áreas pobres, e nas missas e novenas católicas, sempre em busca (em primeiro lugar) de soluções salvadoras para a vida física maltratada.
O que não significa, é verdade, que parte desses crentes não se aglutinem também em busca de lenitivos espirituais para suportar tantas incertezas.
O FATOR RATINHO
Ratinho Junior é sabidamente o capo dos dois partidos que mais identificam apoiadores populares de Leprevost, o PSC e o PSD.
O poder de penetração de Ratinho ninguém duvida, aí está, na bancada de 12 deputados estaduais que ele fez em 2014.
“A força do Leprevost começa a se mostrar agora com o grande número de candidatos a vereador evangélicos do PSC que apoia Ney, depois de uma ampla e irreversível cisão política de lideranças pentecostais de Curitiba”, é o que me garante um pastor da Igreja Assembleia de Deus Ministério Madureira. Pede anonimato, “por motivos óbvios”, assinala.
Sem esquecer o fator religião na política curitibana – outrora dominada pela Igreja Católica, em tempos de Bento, Ney e Canet Jr. -. Há, no entanto, outros fatores a considerar. Um deles, uma certa ânsia de revide que os partidos mais à esquerda, como PSOL e PT, apresentarão, contra tudo e quase todos.
Para quem irá o voto final dos petistas?
Se o segundo turno for para Requião Filho, lá estará de plantão para acolher esses “irmãos” o pessoal da REDE e Jorge Bernardi. É o vice do filho de RR.
FATOR “MENUDOS”
Na verdade, não acredito em favas contadas hoje. Greca de Macedo e Fruet podem estar na ponta da grande corrida, uma cancha reta. Mas não se desprezem fatores surpresas. Tal como eu o mencionei a um velho amigo.
E ele, irônico, me indagou:
“Você não vai me dizer que Maria Victoria, será fator decisivo, na hora final, optando por um dos que vão para o segundo turno?”
Não havia pensado em Maria Victoria decidindo eleição. Mas até que pode ser…
Assim como também decisivo, nas mesmas circunstâncias, pode ser outro “menudo”, Requião Filho. Por que não?
ÁLVARO, CASO À PARTE

Álvaro Dias não ficará com o prefeito Gustavo Fruet, embora os pedidos de seu irmão, Osmar, garante-me um político do PV, a nova legenda do senador.
A afirmação contraria o que registrei sobre possível escolha de Álvaro.
E o motivo seria muito simples, mas com vários ângulos. O primeiro deles, porque Álvaro não vê motivos para apoiar Fruet, que não o apoiou nas últimas eleições.
Outro fator se liga ao grande universo de amigos e apoiadores, alguns de dezenas de anos, que Álvaro tem em Curitiba, aos quais não quereria contrariar. Deles o senador se considera “devedor de atenções”.
Outro dado, não menos importante: não esquecer que o suplente do senador Álvaro Dias é o empresário Joel Malucelli, condestável do PSD, apoiador de Leprevost. Mais um motivo, então, para Dias ficar quieto, sem declarar voto.
