quinta-feira, 23 abril, 2026
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Quem é que vai governar Curitiba?

Jaime Lerner e Giovanni Gionédis
Jaime Lerner e Giovanni Gionédis

Os candidatos à Prefeitura de Curitiba foram se manifestando com a lerdeza desses tempos político-eleitorais incertos e de muitas restrições às campanhas.

Quer dizer: sem as antecipações ‘imorais’ de tempos de gastanças a rodo e de contratação de marquetólogos caríssimos, os pretendentes foram se expondo comedidamente. Na obediência aos novos ditames legais, o que é surpresa, embora haja reclamações à justiça de que um pré-candidato feriu a lei, fazendo campanha fora de hora. Uma exceção.

No geral, as novas regras seguem, até o momento, sob o som do “amém” à Justiça Eleitoral, em Curitiba.

LAVA JATO

As limitações legais estabelecidas para gastos de candidatos em outubro são muitas. Se serão obedecidas à risca até o fim, isso é outra realidade. Mas vamos imaginar que em tempos de Lava Jato, e de fiscalização da sociedade – para o que têm contribuído a ação da imprensa e de alguns personagens das redes sociais -, estejamos mesmo diante de uma nova maneira de eleger prefeito e vereadores.

Afinal, pensar positivamente é mais do que uma regra de técnicas de autoajuda.

O caso de Curitiba, para quem tem memória ampla – no meu caso, reportado aos tempos da campanha do então major Ney Braga a prefeito -, é ainda um estimulante ‘puzzle’ a aguçar o espírito de premonição de tanta gente que se diz autoridade em pesquisas e nos volteios da política local.

Nesse olhar e passeio que se faz em torno dos que querem substituir Fruet, vamos então admitir que todos eles – incluindo o atual prefeito – estão dispostos a não recorrer a caminhos heterodoxos de fazer campanha. Serão candidatos acima de qualquer suspeita.

ALVARO E BETO

Nesses volteios, em que pesam basicamente prestígio político, há os que, por exemplo, acham que Álvaro Dias, no PV, partido de inspiração ecológica (embora entre seus condestáveis esteja Zequinha Sarney) dará peso grande ao candidato que contar com seu apoio ao Palácio 29 de Março. Não como duvidar do poder de convencimento e penetração de Álvaro, goste-se ou não dele.

Álvaro ficará, tudo indica, com Gustavo Fruet, ao lado de seu irmão, Osmar Dias, virtual candidato ao governo em 2018. É o que se diz.

Outros não terão dúvidas em considerar “danoso”, in limine, o apoio de Beto Richa a Rafael Greca, dados os baixos índices de aceitação que pesquisas estariam indicando ao governador.

Mas Beto não poder ser visto apenas por rejeição eleitoral. Ele tem alguns trunfos a apresentar, como a boa situação do Estado, gerada pelo recente ajuste fiscal, e também pela constante atração de novos investimentos que vão chegando ao Paraná, realidades que não deixam seu Governo desnudo. Embora as inevitáveis reclamações sobre carências administrativas venham a cerrar baterias contra o Governo, podendo atingir Greca.

GRECA PERDEU

No entanto, esses mesmos analistas se esquecem que Greca, ele mesmo, tem grande rejeição em Curitiba, localizada fortemente naquela área que por muitos anos apoiou Rafael: a classe média. As últimas eleições assim nos mostraram.

O político Greca na classe média nasceu, pelas mãos de seu padrinho e mentor Jaime Lerner, que não quer nem ouvir mais falar em Rafael.

Em contatos pessoais com amigos, Lerner não esconde a distância que quer manter do ex-discípulo infiel.

Por isso tudo, insisto: ninguém pode subestimar o peso da classe média curitibana, e mais ainda a capacidade de “alto-falante” daquela fatia dela que se expressa e enxerga a realidade local a partir dos feitos de Jaime Lerner.

OS LERNISTAS

A maior parte dos lernistas, não tenho dúvidas, não ficará com Greca, embora se saiba que um deles, que por anos ocupou o Palácio Iguaçu, mas de pouco peso político, esteja trabalhando pelo ex-prefeito Greca. E que Giovanni Gionédis, poderoso secretário de Fazenda de Lerner no Governo, seja hoje visto hoje como o “primus interpares” dos assessores do candidato do outrora “coração curitibano”.

A bem da verdade: Gionédis e Lerner não são mais amigos, apenas respeitam-se. Mantêm-se distantes, um do outro.

O que não se pode esquecer é que se as pesquisas de hoje sorriem (?) para Greca, ele não tem um bom portfólio de lembranças eleitorais: nas duas últimas tentativas de eleger-se deputado estadual foi derrotado solenemente, em grande parte como fruto do desgaste que lhe trouxe a união com o outrora arqui-inimigo RR, a melhor antítese de tudo aquilo que Rafael dizia acreditar e a defender.

Os lernistas, enfim, com quem ficarão?

Maria Victoria
Maria Victoria

Difícil dizer com quem ficarão. Bem mais fácil é dizer com quem não ficarão. Se Greca é carta fora do baralho do universo de apoiadores, admiradores e eleitores agradecidos pela cidade que Lerner promoveu a modelo mundial, há uma margem não muito grande para entender certos apoios lernistas. Um dos beneficiários é a jovem Maria Victoria, PP, filha de Cida Borghetti e Ricardo Barros.

Ela tem recebido, de fato, algum tipo de atenção de Jaime Lerner. A moça representa o novo, sem máculas. Embora uma banda perniciosa de contestadores queira condenar Maria Victoria simplesmente por ter ela os pais que tem, políticos de prestígio.

Já Ney Leprevost circula naquele universo que sempre teve alguma ligação com o grupo de Lerner. É uma relação tênue, nunca foi forte o suficiente para envolver o parlamentar do PSD ao grupo JL. Eu diria que não se deve menosprezar o nome de Ney Leprevost, cujo eleitorado está mais ou menos numa das faixas do público de Greca. Com a vantagem agora clarificada: Ney terá o endosso de Ratinho Junior, que, na prática, controla dois partidos, o PSC e o PSD. E as vozes de Ratinho e de seu pai são ainda as que têm melhor acústica nas áreas periféricas de Curitiba. Quanto isso significará de votos, nas urnas???

FRUET E LERNER

Gustavo Fruet
Gustavo Fruet

Claro que a multidão de lernistas, muitas vezes silenciosa, não raciocina de forma dogmática – Lerner, afinal, nunca falou “ex-Cathedra” Ele e sua fala geram variações em torno de uma nota só, a Curitiba que se fixou a partir de 1971.

Há exceções: auxiliares de outrora de Lerner podem até estar com Greca, como Giovanni Gionédis, o poderoso secretário de Fazenda de Jaime. Assim como outro notável da equipe Lerner, Gerson Guelmann, mantém-se fiel a Gustavo Fruet.

O distanciamento de Lerner das candidaturas aí postas é bem claro.

O prefeito Fruet, que teve apoio de Lerner em 2012, dele o urbanista mantém hoje uma polida distância regulamentar. Mas não poupa críticas a ausência de planejamento profundo da cidade – “o prever para prover”, uma inação administrativa incontestável, e a ausência de qualquer inventividade na vida urbana.

O planejamento foi marca de Lerner nas 3 vezes em que presidiu o IPPUC, a outrora “Sorbonne do Juvevê”, hoje sem prestígio e sem realizações, assim como a URBS, a CIC S/A e administração toda. A exceção talvez seja a área de saúde, onde gente séria, como Euclides Scalco (voluntário) e Gerson Zafalon Martins prestam enorme apoio às ações da Pasta da Saúde (SUS especialmente).

Se os lernistas (e Lerner) não ficarão com Fruet (pelo menos no primeiro turno), também descarte-se a possibilidade de o lernismo envolver-se com as ditas candidaturas populistas, estilo PT, PSOL, REDE, etc.

O PMDB/REDE, com Requião Filho, nem entra em análise no mundo dos amigos de Lerner. Por motivos muito óbvios.

Proximamente quero analisar quão preconceituosa parte do eleitorado pode estar se mostrando com relação a certas candidaturas. Isto a se julgar pelo que aparece em redes sociais, com inexplicáveis “queimações” de nomes alvejados simplesmente por pertencerem a camadas sociais bem aquinhoadas financeiramente.

Esse comportamento me lembra o quanto foi forte, no período ditatorial e depois, sob a égide do PT, o “patrulhamento” sócio ideológico.

Essa era uma realidade que eu já imaginava sepultada. Estava equivocado.

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