
Em janeiro de 1970, o Café Haiti abria as portas para o público na Rua XV de Novembro, em Curitiba. A proibição do trânsito de carros só viria dois anos depois, pelas mãos de Jaime Lerner. O Haiti havia se acomodado na esquina da Galeria Lustosa com a depois famosa Rua das Flores, mas é da galeria que o proprietário, o árabe Elias Massadki, hoje com 87 anos, orgulhava-se. Era um pertencimento que ele não abria mão, mesmo estando no limiar do petit-pavé, cujas pedras seriam fixadas uma a uma em longo trabalho de longos dias. Por isso mandou colocar ou deixou ali colocado o endereço: Lustosa, 556, número que era também o da galeria.
DONA MARIA ALBERTINA
Elias havia comprado o café de um catarinense que havia recebido o lugar em pagamento de uma dívida. Como não se interessou pelo negócio, passou-o ao árabe sem discutir preço. Dona Maria Albertina Massadki, cujo nome de batismo não esconde a ascendência lusitana, pôs-se a diversificar. Primeiro, incluiu ao cardápio de sanduíches também os salgados. Depois, fez do andar de cima do café um restaurante de era áurea e escassa, seguindo, dessa maneira, a linha do tempo de ascensão e queda da Rua XV.
MÁQUINA DE CAFÉ COROA
Na quarta-feira (7), às 19 horas, o Café Haiti fecha as portas para não reabrir. As duas funcionárias que restaram cumprem aviso prévio e pouco se sabe de seu destino. O de Dona Maria Albertina tampouco. Enquanto passa o café na tradicional Máquina Coroa, fabricada pela quase secular indústria Monarcha, Albertina fala de seus planos. São poucos e incluem uma bateria de exames médicos. Durante 48 anos, ela cumpriu jornada diária no estabelecimento. Há que se deixar examinar, ainda que a saúde lhe pareça brotar nas faces e a beleza no contorno das sobrancelhas bem cuidadas.
OS DOIS OSVALDOS
Há menos de 40 metros, galeria adentro, passagem para quem vai e vem da Rua XV para a Marechal Deodoro e vice-versa, em piso liso e bem cuidado, está o salão do barbeiro Osvaldo Sturmer, 72, um descendente de alemães, filho da Grande Guerra (a mais cruel delas), que acelerou a imigração germânica para o Brasil, enriquecendo o Sul do Brasil com as tradições europeias. À sua frente, sentado está um velho amigo, Osvaldo Cella, 74, italiano como o patronímico diz, na condição de cliente exposto à tesoura empunhada habilmente pelo outro Osvaldo, de quem é, sempre de longa data, companheiro de truco.
BOM CAFÉ, BOA CONVERSA
A escolha do barbeiro nesse relato não é fortuita. Ele abriu o salão em agosto de 1969 e deu a ele o nome de Santa Monica. Agora, ostenta na entrada placa moderna oferecendo corte unissex. São novos tempos. Sua ligação com o Haiti data desse período, seis meses antes do Sr. Elias e da Dona Maria Albertina assumirem o controle do estabelecimento. Desde então é cliente assíduo. “São quase 50 anos de um bom café e de uma boa conversa. Era quando os papéis se invertiam. Eu era o cliente”.
UMA LÁGRIMA
Outros clientes talvez digam o mesmo. Um senhor em especial, cujo nome aqui não se registra, mas que habitualmente, às 16 horas, pedia ali uma média com mais leite e menos café e um pão de queijo, cuja receita é conhecida, mas não o modo de fazer. E isso, às vezes, é tudo. Uma lágrima para o Café Haiti. Junto com ele vai a memória de um sem número de curitibanos.



