
Procuradores municipais de todo o país protestaram contra o juiz Sérgio Moro, convidado para abrir o congresso nacional da categoria promovido em Curitiba. Nada mais natural e democrático do que uma manifestação.
Ainda melhor se subtraída da tradicional queima de pneus e da interdição de ruas. A questão era o motivo. Parecia nebuloso demais. E era.
De acordo com reportagem da rádio Bandnews, Moro seria considerado polêmico e responsável por dividir a categoria de procuradores dos municípios ao se comportar como um acusador e não como um magistrado.
JUIZ ACUSADOR
Citada pela reportagem, a procuradora municipal de Fortaleza, Rosaura Brito Bastos, disse que Moro desrespeita os advogados e a defesa dos réus ao se apresentar imparcial. “Só servem as provas que venham a contribuir com a tese dele, que é acusatória, um juiz não pode ser acusador”.
ARAGÃO, O BREVE
Impedidos de erguer faixas, um grupo de procuradores vaiou Moro. Outro o aplaudiu de pé. Há aqui um cuidado para afirmar quem era a maioria para não melindrar nenhum dos lados. Tratou-se, por óbvio, de um protesto político. Alguns manifestantes, da ala anti-Moro reclamavam um contraponto. Que Eugênio Aragão, o Breve, ministro da Justiça por dois meses no ocaso do governo Dilma estivesse presente.
UM MUNDÃO DE CIDADES
De qualquer forma, os motivos ainda pareciam frágeis, ainda mais em se tratando de procuradores, representantes de 5.570 municípios do país.
VAIA-SE ATÉ MINUTO DE SILÊNCIO
Viva a vaia, disse certa vez o poeta Augusto Campos. Nada é mais democrático do que a vaia. No Brasil, vaia-se até minuto de silêncio, afirmava Nelson Rodrigues. Não há nada de desrespeitoso nisso. É uma manifestação ruidosa, porém pacífica. Aqueles que não querem vaiar podem observar o silêncio. E aqueles que não querem fazer coisa nem outra, podem dar o pinote. Como fizeram 25 dos manifestantes. Era um dia de quase-sol em Curitiba.
LAVA-JATO EM PERIGO
O que Moro disse há muito não é novidade. Há uma corrupção sistêmica no país e ela contaminou todas as esferas da administração pública. Há sinais evidentes de reação por parte de políticos e administradores. Aos poucos, eles vão introduzindo nos projetos de lei medidas protelatórias ou protetoras que, ao fim e ao cabo, podem anular os efeitos da Lava-Jato. Procuradores de outras esferas de poder, os do Ministério Público Federal e Estadual, deixam entrever as similitudes com a Operação Mãos Limpas, na Itália. Lá, como aqui, as denúncias de corrupção foram estarrecedoras. Lá, como aqui, bilhões foram descobertos em paraísos fiscais ou em contas na Suíça. Lá como aqui houve prisões e, no caso italiano, um número exagerado de suicídios. Consta que alguns acusados, inclusive, teriam sido suicidados. Lá como aqui o parlamento, passada a sensação de vergonha, orquestrou uma reação que, se não anulou, praticamente congelou a Mãos Limpas em uma câmara criogênica.
LONGE DAS GARRAS
Para quem não padece da visão simplista do super-herói ou do arqui-inimigo da Justiça, sempre vale a lembrança de que Sérgio Moro, apesar de já ter condenado mais de uma centena de acusados pode fazer pouco. No Brasil, a Justiça tem quatro graus e o foro privilegiado deixa os políticos em exercício de mandato, muito longe da “garras” de um magistrado de primeira instância. Se os procuradores municipais, portanto, têm algo a dizer, talvez seja a hora de expandir os limites de um evento de participação simplória e bater à porta do Congresso Nacional ou dos tribunais superiores. Passagens aéreas para Brasília estão disponíveis na internet.
