
Leonardo Micheletto, 27, pós graduando em Sociologia. Ainda vamos ouvir muito falar dele que vai montando espírito de fino analista de nossa realidade etnográfica. Um dos pontos salientes dessa arrancada é o estudo que ele faz sobre a identidade paranaense a partir da análise da obra de Wilson Martins (“História da Inteligência Brasileira” e “Um Brasil Diferente”).
Em entrevista de Micheletto à coluna, ele derruba tabus, ao dizer:
“Foi-se construindo a identidade do paranaense de homens, brancos, de tipo burguês, civilizado, disciplinado, avesso à bagunça e à desordem. Isso é muito grave, primeiramente por associar ao europeu uma superioridade civilizatória”.
CONSTRUÇÃO DO SÉCULO XIX
1 – Você vê muitos exageros e erros na construção da imagem do paranaense?
A identidade paranaense tem sido construída, desde o final do século XIX, com a ideia de que o Paraná, assim como o restante da região sul, é um estado em que as pessoas são mais civilizadas do que nas demais regiões do país. Esse discurso ainda se mantém muito forte, como vemos na vitoriosa campanha pra prefeitura de Rafael Greca de Macedo, e com a publicidade da “República de Curitiba”, aqui onde a lei seria cumprida.
2 – Você acha errado essa valorização?
O que anda de mãos dadas com essa noção, é a de que Curitiba é a capital “europeia” do Brasil, assim como o Paraná é o estado mais “europeu”. E o que vemos por toda cidade é essa valorização da imigração europeia, em praças, monumentos, na forma como se conta a história do estado. Porém, o que temos do outro lado dessa história, é que outros povos e culturas ficam invisíveis na cidade. Curitiba tem mais de duzentos pontos de ensino de capoeira, segundo dados de 2010 , além de vários terreiros de umbanda e candomblé, e diversos outras formas de cultura negra e cultura indígena.

NEGROS FORAM PARA SP
3 – Como teriam começado esses alegados equívocos?
O que acontece é que, durante o século XIX, os presidentes da província do Paraná foram sucessivamente ampliando e intensificando as políticas de incentivo à imigração europeia, ao passo que as pessoas negras que foram escravizadas aqui, foram sendo vendidas principalmente aos cafezais de São Paulo. Nesse sentido, intelectuais e governantes, no século seguinte, foram elaborando discursos e escritos amenizando e até negando a escravidão que ocorreu no estado do Paraná, dessa forma construindo uma identidade do paranaense como homens, brancos, de tipo burguês, civilizado, disciplinado, avesso à bagunça e à desordem.
SUPERIORIDADE EUROPÉIA?
4 – Qual o tamanho dessa distorção que você apresenta?
Isso é muito grave, primeiramente por associar ao europeu uma superioridade civilizatória, inferiorizando as culturas de outros povos brasileiros e paranaenses. Isso gera também uma exclusão de pessoas negras, indígenas, mestiças e não-brancas em geral, que não se sentem representadas e não recebem o mesmo tratamento por essas terras. Dessa forma, devemos nos atentar cada vez mais ao fator multicultural, e modificar essa ideia construída no pensamento paranaense, a fim de valorizar todas as culturas e povos aqui presentes, para que todos tenham as mesmas oportunidades, os mesmos tratamentos e os mesmos espaços de representação.
CELEBRAR ZUMBI
5 – É importante desmontar, então, isso que seria um equívoco histórico e etnográfico?
Um bom começo seria conceder ao 20 de novembro o feriado em homenagem à Zumbi dos Palmares, para que pelo menos nesse dia se possa começar a abordar o assunto tão importante para a sociedade paranaense.


