quinta-feira, 23 julho, 2026
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OPINIÃO DOS OUTROS: Ali Chaim – quando falar errado é uma arte

“Acontece que é preciso saber falar errado. Falar errado é uma arte, se não vira deboche. Ignorantes são os outros que não entendem coisa tão elementar”. Adoniran Barbosa

 

Ali Chaim e Eloi Zanetti

Por Eloi Zanetti (*)

Conheci o Chain gravando comerciais para o Tecidão, uma loja do grupo Frischmann´s. Eu preparava o texto e na hora das gravações dizia: agora grave do teu jeito, na tua linguagem – e ele, sempre perfeito, colocava o texto com competência no seu estilo cheio de gírias e informalidade.

Os comerciais faziam sucesso e vendiam muito. No seu jeito de falar ele chamava o Maurício Frischmann de “o hebreu” que também tinha por ele muita admiração e carinho. Com o tempo nossa amizade foi-se consolidando e já no Boticário ele ia me visitar – só para jogar conversa fora. Certo dia, aproveitei a sua visita, reuni todo o nosso grupo de criação publicitária e de comunicação e pedi a ele para dar uma aula “de como ele se comunicava com o seu público – o povo” – jovens profissionais talentosos, quase todos com cursos universitários ficaram encantados em ouvir o mestre da comunicação popular oferecer-lhes uma aula tão magnífica. Aula que eles jamais teriam nas suas faculdades e cursos de pós-graduação.

Das suas visitas ele levava sempre pacotes com produtos Boticário para presentear a esposa – eu tinha uma cota para isso. Levava também uma pilha de selos estrangeiros, que o departamento de exportação guardava para eu repassar para a sua coleção de selos. Quando da proximidade do Natal, Dia das Mães e dos Namorados eu já deixava um pacote pronto para o Califa 33, como era conhecido, presentear “a sua cara metade”. Se ele não desse sinal de me visitar próximo a essas datas eu telefonava convidando-o para dar uma chegada, era um prazer ouvir suas histórias. Atrás daquele linguajar rústico, daquele jeito meio desleixado de se trajar e do viver na realidade cruel da crônica policial existia uma das pessoas mais sensíveis e carinhosas que já conheci – pura doçura em embalagem inapropriada. Será?

Já nos últimos anos encontrei-me com ele na Rádio Educativa, onde mantinha um programa de entrevistas. Hábil perguntador sentia-se desprestigiado na casa que talvez, por passar por tantos dirigentes não conheciam todo o seu potencial.

Morre com ele a cordialidade do dia, mas ela renasce em seguida, ele não, foi-se para sempre.

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